14.5.15

Caderno Diário

Voltou. Rejubilo na partilha da informação, de um facto deveras relevante, que hoje, pela alvorada exterior, quando interiormente era ainda início da noite, o pássaro do beiral tornou a dar largas à sua arte lírica. Não deu notas do motivo da ausência, justificações quaisquer, um singelo “olá, cá estou eu.” Simplesmente, regressou, e pegou ao trabalho, o que é deveras meritório, um exemplo de foco, daqueles que se aprendem em formações de dois dias, em luxuosos hotéis, conduzidas por gurus de barbas escorridas e grisalhas: abreviar-me ainda mais as noites, alongando-me os dias que se vão esvaindo. Serei pois, hoje, um zombie: dormindo menos ainda que o costume, que é o resultado esperado — mas um zombie feliz — embora associar estas duas palavras me cause um arrepio sintático. Ao lado da janela onde estou agora, os outros cantam, mas esses já por cá andavam. Neste momento tenho cantorio a trezentos e sessenta graus em torno da casa, o que me permite finalmente cumprir um sonho de sempre, daqueles que se transportam da mais tenra e inocente meninice: saber o que é estar no centro do palco, numa ópera de Wagner, rodeado de vozes de possantes sopranos em canto firme e ininterruptível. É, nem mais, nem menos, como me sinto, agora. O dinheiro que andava a guardar para ir a Bayreuth, vou antes aplicar na construção de um resort para passarada no beiral. Ah, a magnificência de acordar todos os dias, pela madrugada, ao som da abertura de Tannhauser.