15.5.15

Caderno Diário

Nos livros esgotados (eram dois, do mesmo autor, da mesma coleção) que mandei vir de um alfarrabista de outras terras, que os anunciava como em “estado novo ou quase novo” encontrei passagens sublinhadas a esferográfica azul, que me fez recordar as Bic cristal escrita normal, com que nunca marquei qualquer livro meu. Nem nome, sequer, escrevo, podem estar usados, estão, mas imaculados, os tomos da minha estante. Tiro desforra nos livros eletrónicos, nalguns deles pelo menos, que sublinho e anoto com minúcia de escrtiturário, como um estudante em noite longa antes de dia de exame. Mas divirjo. Num destes livros, de páginas tão brancas quanto a capa, excepto pelas linhas azuis que me causam o apelo irracional de ler em primeiro lugar as palavras que destacam, descobri hoje, na parte interior da contracapa, um pequeno bloco de folhas autocolantes, anotado ele também. E se o livro está marcado a azul, o bloco está escrito a vermelho; e se o livro está escrito em francês, as anotações são em inglês; e se o livro é de reflexões filosóficas, o bloco tem nome de “uma_empresa_que_desconheço.com”. E como este é um autor que tem dedicado parte da sua obra a pensar sobre o paralelismo das realidades, achei que deve haver alguma conclusão, brilhante, ou opaca a tirar deste achado. Talvez por não ter ainda tomado café, falta-me a parte do brilho, sobra-me a da opacidade. Pelo sim pelo não, voltei a colocar o bloco autocolante exatamente no mesmo local onde o achei. Percebi que faz tanto parte do livro quanto os sublinhados, que primeiro abominei, e sem os quais não passo, agora. Não sendo nenhuma epifania, mostra-me que o meu cérebro começa a destoldar. Depois de tomar café, só pode melhorar.