16.5.15

Caderno Diário

O pássaro hoje passou a noite fora, concluo, por ter acordado por mor da minha própria clepsidra interior, e não pelo cantorio desatado na janela. Ou tem segunda habitação, aproveitou alguma euribor ornitológica e expandiu o seu património imobiliário, ou foi debicar para a 24 de Julho, enganou-se, e em vez de água tónica, foi o gin que lhe aliviou a sede; saciou-se; inebriou-se; tramou-se. Agora, estou eu em cuidados com este cantor errático. Não se lhe conhece qualquer previsibilidade, nenhum ritmo, rotina nenhuma. Desaparece quando quer, tonitrua quando lhe apetece. Não consigo dormir durante a semana porque está; não estou descansado ao sábado porque leva sumiço. Veneta, a palavra veneta, provém do latim vena, que é como quem diz, veia. Faz o que muito bem lhe dá na veneta, pois, dá asas à liberdade que lhe corre nas veias, o safado. Aposto, tenho a certeza aliás, que é apenas por uma razão, que está bem à vista: é só para me fazer inveja.