18.5.15

Caderno Diário

Seis e meia da manhã, nada. Sete, ainda menos; pássaro, mudo; pio, perdido. Oito da manhã, já o dia ia alto para mim, já havia percorrido o mundo de pólo a pólo e Camilo, já me preparava para, em passo vigoroso, voltar ao ritmo da semana e da cidade, e eis que surgem os queixumes de relva a ser trucidada lá fora. Um diligente trabalhador, de macacão verde e capacete laranja, disparava estilhaços de erva em todas as direções, trabalho bem feito, metódico, meticuloso; ruidoso. Ruidoso como se em vez daquele desafinado instrumento de devastação massiva, de cor a condizer com o capacete, estivesse antes a conduzir um camião de longo curso; junta-se outro: somam-se os decibéis. E eis que, estremunhado, com pio ainda incerto, espreguiçando-se, decerto, o pássaro desperta: oh, alegria breve, finita vitória, gozo interior. Acordei primeiro que o pássaro, já estou fresco e pronto e de café tomado — e ele, ensonado, azoado, desatinado. Começo a acreditar naquilo do carma: obreiros da aparação da relva, vossa missão é, afinal, mais profunda do que parece: nada menos do que repor a ordem natural no universo. O pássaro piou um fio finamente melódico, viu que não se conseguia cotejar  com o roncar dos aparadores, virou-se para o lado; voltou a dormir.