2.5.15

Caderno Diário

Seis e meia da manhã e o quarto em silêncio. Sete horas, nem um pio. Às oito, já estava inquieto, e agora, a meio da manhã, estou apreensivo: do pássaro, nem um trinado, nem um arroubo lírico, nada. Ter-se-á afastado demais e perdido o caminho para o meu beiral? Seria vítima de emboscada de ave rapineira? Impensável ter sido alvo de um arremedo de fisga, daquelas fabricadas no oriente, de maus plásticos, versão horrenda das que eu elaborava meticulosamente com borrachas virgens compradas na papelaria do Senhor Paulino, um bocado de ramo de árvore em forma de “V” e uma tira de cabedal, implorada ao Senhor Jacinto, sapateiro, tudo bem atado com fio de guita. Se o soubesse atingido desta forma artesanal, ainda mitigaria a falta, intuindo a alegria do garoto que teria, finalmente, acertado uma fisgada. Agora assim, tudo ignorando, atormento-me. Dormi o mesmo, afinal, que nos outros dias: o pássaro está inocente das minhas madrugadas brancas. E eu, ganhei mais uma dor de ausência. Olha que esta, era só mesmo o que me faltava.