21.5.15

Caderno Diário

O pássaro calou-se, o vento parou. No silêncio absoluto (e absurdo), tento descobrir algum ruído que me inspire o início da manhã. E enquanto escrevo, ouça passar uma revoada de voadores mesmo ao lado da janela — como que a recordar-me que o mundo exterior não desapareceu durante a noite. Sei que, daqui a pouco, ouvirei um canoro mesmo por cima, e esse é fiável, canta todo o dia, com espírito de missão. Mas é o que se espera num local de trabalho: até os pássaros vestem a camisola, se impregnam dos valores, cumprem objetivos. Ordem e progresso. E no entanto, descobrindo em mim uma faceta de anarquista, prefiro o aleatório pássaro do meu beiral, errático, que uns dias trova inopinadamente às seis, e noutros dorme até horas em que já não o ouço espreguiçar-se; gosto desta ave incerta; amo os alvoroços de doçura.