25.5.15

Caderno Diário

Sete horas em ponto, olhei eu para o relógio, porque olhei. Um ímpeto wagneriano, de um pássaro que, por certo, adora o cheiro do sol pela manhã, irrompe pelo quarto, onde dou a volta ao mundo, não viajando como Maistre, mas vendo-o num aparato com ecrã, nesta janela que me permite olhar para o globo de pólo a pólo antes do canoro despertar. E estava eu a congeminar palavras para escrever neste caderno, sobre sentimentos profundos e histórias superficiais, e o bicharoco veio e varreu tudo: a arte lírica do voador tem sobre mim o poder da barrela, do sabão azul e branco com cheiro a lavado. O meu profundo desconhecimento das nuances do canto das aves não me permite dizer a que espécie pertence: terei que fazer um estágio nas obras de Messiaen, compositor de que não tenho sido muito assíduo, para o descortinar. Mas, por causa dele, redescobri a memória desse cheiro de tempos tão idos, tão levados de lavados, de tempos em que o tempo tinha todo o tempo; abro a porta da rua, com tempo e um sorriso; a semana começou bem.