26.5.15

Caderno Diário

Acordou já passava bem das sete, que eu anotei — e cronometrei: catorze minutos de canto. E depois, silêncio. Não é bem uma tomada de posição, não é a greve do dia, é uma afirmação estética. O pássaro refina-se: já não acorda cedo, mas também não se espreguiça escandalosamente tarde; já não canta apenas para assinalar a presença no beiral, mas também não se alonga no recital; o seu trinado é um grafiti sonoro — é isso. Por altura da sua erupção lírica, estava eu às voltas com uma estrofe de um poema de Hart Crane: «as pequenas vozes dos cães da pradaria / são incansáveis...» Eu posso ter muito que aprender com Crane — não tudo — mas os cães da pradaria dele teriam muito que aprender com o pássaro que mora lá fora. A beleza breve — é-me infinitamente apreciada. Isso, o pássaro já percebeu. Anseio o início do canto, e tanto temo que se cale — que meço o tempo quando termina. Esperto, o canoro: apanhou-me.