3.5.15

Caderno Diário

Ainda andei em bicos dos pés, dei até uns pulos, mas ele foi ardiloso: o ninho está em local inacessível. Não deixou uma folha de despedida, nem uma penugem sequer. Abalou, simplesmente, e eu, hoje, dormi por fim até horas pagãs. No silêncio profundo da manhã de domingo, parece-me ouvir um trinado distante. Escuto, atento: é mesmo um harpejo, mas tão longínquo, que só pode ser noutro beiral. Tão ténue que não sei se é o mesmo, o do pássaro fugitivo. Mas não importa, porque entretanto noto em mim o mais insidioso dos sentimentos, uma inveja em tom de esmeralda intenso. Noutra janela, que não a minha, um pássaro solfeja: os vizinhos acordarão quando lhe apetecer cantar coisas da vida dele. Eu, estou condenado a aguardar, de ouvido saudoso, que outro se acolha no meu beiral.