24.5.15

Crónicas do Grémio Literário

«Um mentiroso deve ser um homem com boa memória,» afirma Andrada enquanto cofia a sobrancelha, aspirando a chávena de café,  de olhos fechados, ondulando a mão, conduzindo uma orquestra invisível, que apenas ele ouve, e eu intuo. «Os modos de um homem revelam as suas mentiras, meu caro,» contraponho, «não há boa memória que reponha a verdade.» Meço, com os olhos, as estantes da biblioteca dele, enquanto Andrada continua a conduzir o seu concerto imaginário: «Apostam na lei dos grandes números. A maioria das mentiras passa porque ninguém se dá ao trabalho sequer de as tentar apanhar.»  Apoio o queixo no polegar, para exclamar o meu ponto: «Se um homem diz que nunca mentiu, está já a mentir. Se for banqueiro, ou político, basta-lhe apenas mover os lábios.» Adivinho que Andrada esteja a conduzir o quinto concerto de Beethoven, e na entrada do piano, no segundo andamento, acrescento: «Apenas Fradique tinha a ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas.» Andrada interrompe a condução da sua orquestra: «E de formas absolutamente belas, o Fradique. Mas estes mentirosos de agora,» varre o ar com a mão, «nem na mentira têm gosto estético, quanto mais na verdade.»  Já terminámos o café, o reflexo da água dança no tecto da biblioteca: o sol lá fora aguarda-nos. Andrada levanta-se do sofá Chesterfield e conclui: «A vida são só mentiras, enganos e decepções. É pena é ser tão curta.»