17.5.15

Mergulho de fim de tarde de domingo

Recebo por correio eletrónico uma fotografia de uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa em Oxford, atualmente a desfrutar dos cálidos abraços da sua Orchidée junto à piscina da casa que está na família desde a primeira República, quando o bisavô Andrada conseguiu uma boa barganha num terreno para as bandas do Restelo, pertença de um carbonário, que teve que fugir às pressas do país. Mas deambulo e desvio-me — retomo já de seguida o rumo. 

“Meu muito estimado amigo, Orchidée, o sol que ilumina este dia e rejuvenesce o meu ocaso, far-lhe-á chegar esta carta por via dessas máquinas fotográficas que servem ocasionalmente para telefonar e que ela não larga nem quando flutua como agora aqui, esplendorosa, na piscina. 

Dizia ela há pouco: “le pauvre, pauvre J. deve estar enfiado naqueles livros dele, a empalidecer ainda mais, le pauvre. Não o quer inviter para se juntar a nous, ici? Le pauvre J.” 

Diz-me ela, que segue como se fosse religião aquele seu hebdomadário lá das internetes, que o meu amigo não dorme por causa de um pássaro (de um pássaro? ainda por cá tenho um arcabuz que pertenceu ao carbonário que vendeu o terreno ao bisavô — em querendo, o problema resolve-se rapidamente…) 

Não dorme, não apanha sol, passa os dias (ou pior, as noites) nessas suas bibliotecas bolorentas: em suma, não se lhe conhece existência digna de pessoa. Homem, ainda se fina sem chegar a fazer sombra que se veja. 

Pouse lá esse computador onde está a bater teclas (sim, porque está de certeza a bater teclas, mesmo num domingo como este), meta-se no carro, que ainda chega cá a tempo do mergulho de fim de tarde.

Noto agora que Orchidée está a chapinhar as mãos dentro d’água, como se estivesse em êxtase de felicidade. A água está, na realidade, com uma temperatura digna dos mares das Caraíbas, deve ser isso que a faz recuar aos tempos da inocência infantil. 

Cá o aguardamos, para o mergulho, seguido de jantar — que será de sã e honesta confeção portuguesas e não daquelas ervas e seitan, ou lá o que é aquilo que o vai mantendo nos limiares mínimos de sobrevivência. 

Ganhe vida de gente, criatura. 

Deste que muito o preza e considera. 

J. E. de Andrada”