1.5.15

O estranho caso do livro que lia o leitor: Capítulo II

[Capítulo I: Palmier Encoberto]

Ainda a olhar por cima do ombro, o homem retirou do bolso da casaca um lenço de algodão egípcio onde, bordado a fio de ouro, o leitor decifrou, no monograma, a mesma caveira que vislumbrara no ombro da mãe do homem, no retrato. O homem limpou lenta, meticulosamente, o monóculo, como se fora para dar tempo ao leitor para voltar ao ponto de interrupção. O leitor reviu o elmo de bronze envelhecido, oxidado, e o sabre de luz, enquanto o homem se curvava de novo sobre os manuscritos. E foi então que notou o reflexo no monóculo. Dois erros, dois, contou o leitor, tinha cometido o homem naquele salto precipitado. O monóculo espelhava agora os pergaminhos, e o leitor conseguia lê-los ao mesmo tempo, ou antes até, que o homem. Esse, era o primeiro, mas não tão grave quanto o segundo. O leitor pousou o livro nos joelhos, esfregou as mãos e ajeitou os óculos. O segundo erro, o lenço, o monograma, invertia o equilíbrio de poderes: dava-lhe acesso à passagem secreta. E foi quando o seu indicador direito se aproximava já das palavras “tatuagem de uma caveira”, que o ruído ensurdecedor da grande janela de vitral a quebrar, o deixou estarrecido. Vidros coloridos voaram pela sala, enquanto o homem só teve tempo de tapar os olhos com os braços. No meio dos estilhaços de vidro, no chão, um tijolo de barro maciço, vermelho. Enrolado no tijolo, um papel, onde à transparência se viam letras manuscritas a tinta escarlate. O homem pegou no tijolo, desenrolou o papel, e foi então que o leitor o viu ganhar uma palidez mortal. O motivo, adivinhou-o facilmente. No topo do papel, marcado a letras douradas, o monograma, com a tatuagem da sua mãe: a caveira.