12.7.15

Astrolábio à água

Pêro de Évora, navegador de astrolábio em punho, passeia pelo convés quando tropeça no cordame. Solta-se o astrolábio; floreia no ar; numa parábola perfeitamente desenhada, mergulha; um magnífico «plof» e um salpico no casco; o desaparecimento perpétuo. Pêro chicoteado; nau à deriva; revolta a bordo.

Por erros meus, esgota-se a bateria no telefone. Um tijolo, extra-fino até, de última geração, é certo, mas um tijolo, no bolso. Preciso sincronizar locais, horas — horror! como é que isto se faz, sem telefone? Chicotear-me em público, apetece-me, mas não é opção; à deriva é como me sinto; revolto-me, contra esta dependência estúpida. 

Prioridade: chegar ao carro para carregar o telefone. Tudo o resto se torna secundário. Penso: e se fizer com que ao telefone suceda o mesmo que ao astrolábio? Será um dia feliz esse: deve ser bom passar a navegar a vida apenas pelo sentido das correntes, a força dos ventos, os contornos da costa.

A ver se não me esqueço de tropeçar — junto ao rio.