16.8.15

O café do café

Regresso cedo ao café do Chico no dia seguinte ao da mudança de turnos. Os que chegaram, estão em ritmo de arrasto para a praia nossa de cada dia — não apareceram ainda; os que se foram, pois bem, foram. O Chico não está em ritmo de praia, nunca está; o Chico está sempre em ritmo de tango, nem parece desta terra, nunca a pressa o aflige, e é em passos curtos e saltitantes, que dança por entre as mesas, rasga um sorriso lunar e me abraça até que os meus ossos se assemelham a lenha aquecida. O Chico põe-me a par das andanças do sítio, é todo ele uma rede social, sem que eu tenha que comentar ou gostar de polegar. Sento-me junto à janela, tenho o DN e o CM e todos os jornais para mim; mas não me apetecem as notícias. O Chico vai passando, enquanto limpa copos, e eu vou-lhe contando das viagens; quase deixei de beber café, Chico, quase deixei, longe daqui; noto-lhe o sorriso irónico. O café, Chico, o café, é o que redime este país que nos acolhe. Nós, que por cá andamos, pensamos que é o sol, a gentileza das gentes, as brancas areias, o peixe a saltar, vivo; não é. Corre-se Seca e Meca e Roma e Pavia, e nem um dia se bebe um café que saiba a perfeição; nas terras para lá das fronteiras e dos mares, as colheres são por demais grandes, as chávenas são bojudas como galeões, as torras sabem a água com barro. A nostalgia é como uma mola — afasto-me, e quanto mais me afasto, mais a sinto a esticar, até que há uma altura em que ela vence e eu volto, mais veloz do que consigo dizer «café». Mandasse eu nisto, aqui no rectângulo, digo ao Chico, e decretava uma chávena bem ao centro da bandeira: as quinas e a Esfera sobejaram, que para mim bastava café somente. O Chico ri, traz-me outro café: este é por conta da casa, oh nacionalista de meia-chávena. E eu, abro o livro que me acompanha; fico, aboletado, sem compromissos de horas. Domingo, férias e café a sério. Supreendo-me feliz, e perco-me na leitura.