25.10.15

O café da hora antiga

Chego ao café do Chico pela hora antiga, porque há que manter a continuidade dos dias, assim o creio. Não mudarei de hora por imposição, só por opção, só quando me apetecer — apesar do meu carro ter decidido fazê-lo sem autorização, e dos gadgets o terem imitado, os influenciáveis. Assim entro no café a uma hora diferente de todos os que ainda lá não chegaram porque já estão numa hora nova, já lhes levo avanço, vai dar para daqui a pouco comprar até um livro de poesia, mas isso eles não sabem. Chego ao café ainda sem o livro que comprarei, só mais tarde — ser narrador omnisciente dá para jogar com vários tempos ao mesmo tempo, pensa a leitora, e pensa bem, como sempre, omnisciente, também. Recebe-me o Chico no tempo dele, que é um tempo intemporal, não há relógio na parede do café, nem televisão ligada, pode haver lua ao meio-dia e sol à meia-noite e o cliente perderá, ainda assim, a noção de tempo. Que bem sabe, o tempo sem tempo, quase tão bem como os pastéis de nata, dois, que o Chico junta ao café, dois para celebrar o dia longo. E enquanto ainda não compro o livro, leio o jornal, que é o benefício de chegar antes dos outros, exceto do Júlio e da Laura, que estão a tomar o café em mesas separadas, cada qual com o seu telefone, a ler, a escrever, a ler, a sorrir, a ler, a escrever. O Júlio e a Laura, que o destino separou e o café juntou, tomam café ao mesmo tempo, não em conjunto, mas juntos. Mesas contíguas, chávenas sincronizadas, olhares perdidos no telefone. O Chico dança por entre as mesas aquele tango dele, semeia olhares e palavras. Procuro uma nesga de azul, uma que seja, lá fora, mas sol, só dentro do café, bem o vejo, entre as mesas do Júlio e da Laura. Bem nota o Chico, a quem a face irónica se ilumina enquanto passa entre as mesas. E quando sai a Laura, sai logo a seguir o Júlio. E a Laura estaca, à porta do café, do lado de fora, procura algo na mala, alonga o tempo de procura, transforma-se em tempo de espera. Eis que o Júlio chega junto, num repente abraçam-se, um abraço tão rápido como a diferença entre a hora antiga e a nova. O destino separou, o abraço juntou. Ninguém viu o abraço, furtivo, ninguém exceto eu e o Chico, mas nós não contamos: somos discretos, secretos, ninguém. Eu disse rápido, há pouco? Deveria ter dito longo: depois do abraço, vejo-os acertar os relógios, cada qual o seu. Prolongado o abraço, portanto. O tempo é o que deles quisermos fazer. Abraço o Chico, abraço a mulher do Chico, também. Saio. Do Júlio e da Laura, já não há sinal. Vou aproveitar a hora extra, comprar o tal livro de poesia. Isso a leitora, omnisciente, já sabe. Mas dá-me o devido desconto, porque hoje, a hora a mais, até para isso dá.