5.12.15

Elixir da eterna juventude

Quando não vou ao café do Chico, absorvo cafeína em forma liquefeita no café do Senhor Jacinto. Há muitos anos que lá vou, anos que passaram depressa, mas não para o Senhor Jacinto e retomo o tema já, já.

O Senhor Jacinto hoje conferia faturas, enquanto os funcionários, da geração X, aviam cafés, pastéis de nata, torradas, galões, tostas mistas, queques e pães de deus. Eu fiquei-me pelo café, deitando embora um olhar de soslaio ao pão de deus. Recordo-me que esta semana comi um, bem bom por sinal, noutro café (o da Dona Albertina, ainda outra Dona, servido pelo Senhor Arnaldo, que usa t-shirt no pico do Inverno, para mostrar, assim julgo, as tatuagens intricadas, parece um maori, quase o imagino a fazer a haka).

Mas perco-me nestas divagações. Retomo, nas faturas do Senhor Jacinto. Dizia eu que os anos passaram, mas o Senhor Jacinto permanece igual: o cabelo não cresceu no alto da cabeça, liso; o bigode não desapareceu, nem embranqueceu. Não aumentou ele de tamanho, e vi-o sentado (a conferir faturas, lá está) mas também não achei que tivesse diminuído. Não muda de uniforme desde o início do café, mas é pessoa de asseio, assumo que será lavado periodicamente, o dito.

Antes, passei pelo quiosque do Senhor Joaquim, para comprar o espesso, não é gralha, é trocadilho gasto, mas é habitual: Senhor Joaquim, é o espesso se faz favor, e entrego a nota de cinco euros, e pergunto se ainda chega, e o Senhor Joaquim entrega-me moedas pretas e cor de metal, e é todo um ritual, chega e sobra. E o Senhor Joaquim, tal como o Senhor Jacinto encontrou o elixir da eterna juventude, está na mesma, bem conservado, Deus o proteja. Há tantos anos que por lá passo, e não noto a diferença neles, mas noto em mim. Talvez porque não saiba, não consiga determinar, a idade deles, mas saiba a minha, estão sempre como quando os conheci, há tantos anos. E nunca lhes tirei uma fotografia, é verdade.

A receita do elixir talvez seja simples, no fim de contas: não se saiba a idade, não se guarde qualquer imagem de dias idos, vejam-se as pessoas semanalmente, vá, que seja. E ai estão, para as curvas, para a eternidade. A conferir faturas, ou a entregar espessos, numa continuidade tranquilizadora. Uma das poucas, mas tão valiosa que não há notas de cinco euros em quantidade suficiente para a pagar.