31.12.15

O Grande Eustáquio da Ópera

Recebo de José Eustáquio de Andrada, professor de literatura portuguesa, no Magdalen College em Oxford, atualmente retirado nos braços da florescente e preciosa Orchidée, uma mensagem manuscrita pelo seu punho, a tinta azul safira, onde reconheço o aroma floral da sua musa.

Meu muito prezado amigo,

Quando esta lhe chegar às mãos, encontrar-me-ei com a dulcíssima Orchidée em Darling Harbour (oh, que nome apropriado para este oásis d'amour), a dois passos da Ópera (1). 

Aqui, nesta baía, veremos o ano chegar antes de quase toda a gente, o que inclui o meu estimado amigo. Orchidée, esta pérola que enche de estrelas o meu dia e de luz as minhas noites, afirma que lhe enviará, atempadamente, notícias do ano novo, por coisas a que ela chama WhatsApp ou Telegram, ou lá esses engenhos que vós, juventude, usais em vez de comunicações digna de pessoas de bem. 

Orchidée, aqui ao lado, sussurra também que dará um mergulho extra amanhã, em Bondi Beach (2), por si, que tem fama de friorento e precisar de águas a, pelo menos, trinta graus, senão mais. Essas leguminosas de que alimenta o corpo e os poemas de que nutre o espírito são insuficientemente calóricos, sempre disse e reafirmo. Um descendente de Genghis Khan, que o somos todos, deveria ter sido treinado nos rigores da água fria, como um Carlos da Maia e desfastiar-se com um bom tártaro, quotidianamente. Agora, se peixe não puxa carroça, menos ainda rebentos de soja fazem locomover bípedes, mesmo que sejam somente cadáveres adiados como diria o poeta, certamente consigo em mente.

Nesta altura toda a gente faz resoluções de novo ano, que são votadas ao olvido no dia dois: eu não. Atingi a tranquilidade, que não a sabedoria, para não ter que resolver nada. Dizia o nosso Eça: «Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...» Não importo resoluções nem civilizações. As minhas mangas são da Avenida da Liberdade e estão a gosto. Orchidée é a minha resolução de ano novo; já foi a do ano que passou, e — por Deus — foi a melhor que fiz! 

Meu caro, se aceita um conselho de quem muito o estima, por hoje deixe os alfarrábios nas estantes, e a relva nos prados. Ao menos por um dia, uma noite, digamos, faça vida de gente, homem: saia, areje as olheiras, sacuda os ácaros, coma um lavagante, beba um Veuve.

E transmita votos, da minha parte e da magnífica Orchidée, de um ano de saúde e prosperidade, a todos os leitores desse hebdomadário que insiste em fazer publicar nas internetes e a quem martiriza com os seus humores erráticos e esse romantismo peco de um Alencar de saldo. Deixe de os torturar com tão desenxabidos e insossos arroubos (Orchidée, ao meu lado, lamenta-se: pauvre, pauvre J. Nunca entenderei tal lástima da minha casta diva pelo destino eremita do meu prezado, para ser franco.)

Como deve ler o que escreve, está obviamente incluído nos votos do parágrafo anterior. E como alguém disse, talvez tenha sido eu, não leve muito a sério o que acima escrevo: os tempos prestam-se a estes chistes, que é tudo o que de sadio nos vai restando ainda.

Deste que muito o estima e considera
J. E. de Andrada


(1) O ilustre Andrada refere-se à Ópera de Sydney, evidentemente. Quanto aos dois passos, serão uma metáfora para o passeio de Jesus Cristo sobre as águas, feito que não está ao alcance de mortais comuns.
(2) Praia a poucos quilómetros de Sydney: pudera, com tais temperaturas, também este escriba iria banhar-se, pois então.