9.12.15

Radicalismos radicais

«Oh Moraes, o mundo está a radicalizar-se entre duas posições extremas e perigosas», bramava J. E. de Andrada. «Não concorda, Moraes, você, que é um homem lido e investido?» 

«Pois claro que concordo, Andrada, mas estas coisas nas Américas e nas Gálias, são boas para os futuros do Brent.» «Mas quem é que está a falar disso?», clamou J. Eustáquio. «Eu estou a referir-me é à divisão do mundo entre os que acham que podem riscar e, oh sacrilégio, dobrar as páginas aos livros, e os outros, aqueles como nós que defendem os valores tradicionais, o livro impoluto, imaculado desde a sua conceção! Pois não concorda, oh Moraes?» 

«Já eu, sublinho a torto e a direito», sentenciou, enterrado no seu sofá, o pálido J. «Mas você não é exemplo para ninguém», atirou J. E. de Andrada. «Você, J., lê tudo em ecrãs, sublinha, mas é de dedo em riste, que eu bem sei. Livros lidos em ecrãs não são livros, são pasquins, como aquele hebdomadário que edita lá nas internetes.»

«Pauvre, pauvre J.», murmurava a dulcíssima Orchidée. «Mon amour, o J. é uma alma atormentada, tem que ter um sublinhar orgânico, n’est ce pas?» «Orgânico ou não, sublinhar é sublinhar, não acha você, oh Moraes? Quem sublinha num ecrã, sublinha num livro de papel, e dá-se por isso, está a grafitar paredes, de lata de spray na mão, como um adolescente de boné de través. Sublinhar livros ou, oh sacrilégio, dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos. Você descende de hunos, J.?» 

«Eu sou de ascendência nórdica», disse J. levantando os olhos do telefone, onde teclava intrepidamente, como se não houvesse dia seguinte. Do outro lado da sala, Orchidée soltou um sorrisinho saltitante como um arpejo. «Nórdicos, viquingues, hunos, é tudo a mesma coisa. Destruidores da cultura, da civilização, das páginas dos livros. Uma praga, pois não acha, oh Moraes?» 

«Uma praga, Andrada, uma praga. Sem dúvida, um tema para colocar na agenda da próxima cimeira de Davos.» «Não esperava menos de si, Moraes, não esperava menos. Já aqui do J.... » 

J. olhava fixamente para o telefone, quando de repente deu um salto e lhe saltaram lágrimas dos olhos, de riso. Do outro lado da sala, também de telefone na mão, Orchidée observava com ar triunfante. «Eu bem digo, já aqui do J....» concluiu Andrada. «Esta gente dos pasquins das internetes, dá-se por eles e dão em vândalos grafitadores. Pois não acha você, oh Moraes?» «É colocar-lhes desde logo pensos rápidos nos dedos para que não sublinhem nos ecrãs, Andrada», sugeri eu. «Há que cortar o mal pela raiz!», corroborou o professor reformado do Magdalen College. 

Orchidée e J. estavam, por essa altura, demasiado ocupados com os telefones para lhe prestar sequer atenção.