28.8.15

Epístola a um vilegiaturista

Recebo de J. Eustáquio de Andrada uma missiva, escrita a tinta azul cobalto, na sua letra cultivada nos salões de arte caligráfica apensos ao Magdalen College, em Oxford, onde foi professor de Literatura Portuguesa, até se retirar, nos seus anos de ouro, para os braços de Orchidée, sua musa d’estes dias.

Meu muito estimado amigo,

Stevenson dizia que viajava, não para ir a algum lado, mas para ir. O meu prezado correspondente, que há um mês expunha as suas dúvidas sobre ir, provavelmente foi, sem de facto ir a lado algum. Não me espantaria que, quando muito se tivesse soterrado nalgum tugúrio perdido nos montes, empanturrando-se das obras completas de Lactâncio e Santo Agostinho — e desnutrindo-se decerto com sopas de acelgas e sumo de pepino. Aqui ao meu lado, perante tal perspectiva, alguém soluça, na língua de Musset: «Pauvre, pauvre J.» 

Imagina-o a pobre Orchidée — esta diva que transforma o meu ocaso numa vereda crócea para o paraíso — com um carão ainda mais esquálido e pálido, do que o levou à partida, após todas as horas que terá passado nessa gruta, a ler até desoras à luz de velas, esses alfarrábios bichosos e bafientos. Não o faz por menos, a minha deidade. 

Reproduzindo os passos de Thoreau, que já me confessou admirar, o meu amigo, no seu regresso aos primórdios, nalgum Walden Pound perdido no Portugal profundo, imagino-o eu. Um mui sui generis vilegiaturista, portanto. (Orchidée, que numa primeira leitura, percebeu «naturista» fita-me com ar de fera — e injustificada — reprovação). 

Insta-me a dulcíssima Orchidée a salvá-lo da inanição em que decerto se encontra depois desse seu mais que provável retiro meditativo afundado em cartapácios (tem a certeza de que tem forças para se mover? precisa que lhe envie uma equipa de salvação, com soro, talvez?). 

Caso se consiga arrastar até ao Restelo, as portas de nossa casa estão abertas, a mesa fartamente posta, e um turno de enfermagem a postos para os primeiros socorros, que isso de ver a luz não filtrada pelas ramagens de árvores dos bosques pode causar fotofobia, e os primeiros alimentos dignos desse nome num mês, dilatação excessiva dos órgãos digestivos. Renascer causa mais cuidados que nascer, em suma.

Apareça. Pela sua saúde.

Deste que sempre o considera,

J. Eustáquio de Andrada

16.8.15

O café do café

Regresso cedo ao café do Chico no dia seguinte ao da mudança de turnos. Os que chegaram, estão em ritmo de arrasto para a praia nossa de cada dia — não apareceram ainda; os que se foram, pois bem, foram. O Chico não está em ritmo de praia, nunca está; o Chico está sempre em ritmo de tango, nem parece desta terra, nunca a pressa o aflige, e é em passos curtos e saltitantes, que dança por entre as mesas, rasga um sorriso lunar e me abraça até que os meus ossos se assemelham a lenha aquecida. O Chico põe-me a par das andanças do sítio, é todo ele uma rede social, sem que eu tenha que comentar ou gostar de polegar. Sento-me junto à janela, tenho o DN e o CM e todos os jornais para mim; mas não me apetecem as notícias. O Chico vai passando, enquanto limpa copos, e eu vou-lhe contando das viagens; quase deixei de beber café, Chico, quase deixei, longe daqui; noto-lhe o sorriso irónico. O café, Chico, o café, é o que redime este país que nos acolhe. Nós, que por cá andamos, pensamos que é o sol, a gentileza das gentes, as brancas areias, o peixe a saltar, vivo; não é. Corre-se Seca e Meca e Roma e Pavia, e nem um dia se bebe um café que saiba a perfeição; nas terras para lá das fronteiras e dos mares, as colheres são por demais grandes, as chávenas são bojudas como galeões, as torras sabem a água com barro. A nostalgia é como uma mola — afasto-me, e quanto mais me afasto, mais a sinto a esticar, até que há uma altura em que ela vence e eu volto, mais veloz do que consigo dizer «café». Mandasse eu nisto, aqui no rectângulo, digo ao Chico, e decretava uma chávena bem ao centro da bandeira: as quinas e a Esfera sobejaram, que para mim bastava café somente. O Chico ri, traz-me outro café: este é por conta da casa, oh nacionalista de meia-chávena. E eu, abro o livro que me acompanha; fico, aboletado, sem compromissos de horas. Domingo, férias e café a sério. Supreendo-me feliz, e perco-me na leitura.

1.8.15

Mais cigarras de agosto

Esperavam-me, à entrada da praia, as cigarras, antes da descida. O concerto continuava onde o tinha deixado, quando saí de casa: notei a persistência melódica. Não sei se os homens que transportavam as suas asas as ouviam — suspeito que já estavam sintonizados nas boas vibrações dos Beach Boys, ecoadas pelos altifalantes do bar. Mais à frente, abrigados das areias rodopiante, dois tocadores, um de viola, outro de guitarra portuguesa, ofereciam um fado ao mar onde, em cima das ondas, dançavam homens vestidos de negro, embalados, pareceu-me, pelo ritmo da música, nos braços do vento. Lembraram-me anjos bailando. Quando, mais tarde, regressei à entrada, ao canto das cigarras, um rapaz que chegava nesse instante, trazia estampadas na t-shirt as palavras Why don’t you blog about it? Sim, porque não? Este agosto está cheio de cigarras.