28.12.16

Basta juntar especiarias

O poeta surrealista Paul Celan, que encontrei na companhia de Hans Weigel ontem à noite, e que é muito fascinante, apaixonou-se maravilhosamente por mim, e isso acrescenta algumas especiarias à minha vida sinistramente laboriosa.

[De uma carta de Ingeborg Bachman, então com vinte e dois anos, aos seus pais, escrita a 17 de maio de 1948.]

27.12.16

Mais doce que mil beijos, muito mais do que o moscatel!

Querido pai, não seja tão rigoroso! Se eu não puder ter a minha chávena de café três vezes por dia, fico seca como um naco de cabra assado! Ah! Quão doce é o sabor do café! Mais do que mil beijos, muito mais do que o moscatel! Preciso tomar o meu café e se alguém quiser agradar-me, deixe-o presentear-me com — café!

[Da humorística Cantata do Café, escrita em 1732 por Bach, em que uma filha pede ao pai para a deixar continuar com o seu vício favorito.]

25.12.16

Alfeu, acendedor de luzes em Alfache

Alfeu, que viveu em Alfache durante noventa e nove anos e noventa e nove dias, teve como profissão e paixão acender luzes. Todos os dias, desde que fez dez anos, Alfeu começou a acompanhar o pai, Alítio, quando este saia a alumiar Alfache. Cada luz tem uma voz, descobriu Alfeu com Alítio, o maior segredo da família, desde que o bisavô de Alítio, Aloís, iniciou a profissão de acendedor de luzes em Alfache.

Sabia Alfeu interpretar a fala das luzes, tecer a teia do fio das histórias que as luzes contavam do pôr ao nascer do sol, quando Alfeu ficava a ouvi-las, toda a noite, até chegar a altura de apagá-las, de novo. Alfeu anotou as histórias das luzes em folhas de papel brancas que escrevia com a sua letra minuciosa. As luzes sabiam todas as histórias da noite, que é, como se sabe, a altura em que as histórias se revelam.

Na cave da casa de Alfeu amontoaram-se tantas folhas quantas as noites em que ele ouviu as histórias, dos quinze aos noventa e nove anos e noventa e nove dias. Quando a mãe de todas as luzes veio buscá-lo para o lugar onde vão as luzes que aguardam ser acesas, Irmino, o presidente da câmara de Alfache descobriu as folhas na cave e sentou-se a lê-las. Interrompeu apenas para fazer um discurso de boas vindas aos anjos que levariam Alfeu à presença da mãe de todas as luzes. Saulina, a mulher de Irmino, durante os trinta dias completos que demorou a leitura das folhas de Alfeu, levava-lhe o almoço e o jantar e ia despedir-se dele com um terno beijo na testa.

Ao trigésimo primeiro dia, Irmino, emergiu da cave de Alfeu, e conta quem o viu então que tinha uma aura em volta dos cabelos despenteados. Nessa noite e nas outras que se seguiram, Irmino despediu-se de Saulina e foi, ele próprio, acender as luzes de Alfache. Não confessou a ninguém, nem a Saulina, que também ele, agora, sabia ouvir as luzes, juntar os fios das histórias. Havia ganho o dom de Alfeu.

23.12.16

Recebo uma carta com a caligrafia cuidada de J. Eustáquio da Andrada

Chegou-me, pela mão própria de Reboredo, e que mãos tem Reboredo, ortopedista diplomado na escola de King Saul Boulevard, uma missiva escrita com a caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado de Literatura Portuguesa, atualmente dourando os seus anos no amplexo solar da dulcíssima Ochidée.

Meu muito prezado amigo,

Contam-me fontes geralmente fiáveis que foi avistado a sair olheirento de um desses locais atafulhados de tomos bafientos onde normalmente gasta os seus dias em inconsequente indolência, apenas quebrada por charlas ocasionais com gerentes de serviço, eufemismo moderno para o que dantes, em tempos mais rijos, se chamava empregadas de balcão. Imagino que disserte com elas sobre Wittgenstein, Benjamin ou Bloch, pensadores que, afirmam as mesmas fontes que aqui ao lado soluçam: «Pauvre, pauvre J.» agora lhe preenchem os dias e as noites. Por mais anos que viva, e espero que sejam muitos, não perceberei a sua vida, nem a lástima que inspira a esta doce e pura orquídea, que por si verte tão copiosas e estridentes lágrimas.

Não creio que existam razões para lamentar o homem que se enfronha em livros cheios de traças de sol a lua, com eventuais paragens numa estufa de ervas (É só o que come, não é? Isso das urtigas, não pica o palato? Mera curiosidade…) e em esplanadas com cafés de duvidosas qualidades térmicas. Bom, adiante: instado por esta alma generosíssima («Pauvre, pauvre, J.») que se aflige por o meu caríssimo amigo em vez de uma boa posta de bacalhau dos mares do norte se preparar decerto para fazer um festim natalício com uma folha de alface e um ramalhete de rúcula (e sentir-se-á cheio que nem um abade, acredito) venho endereçar-lhe um convite para que compareça por cá na noite do dia vinte e quatro. Se conseguir descolar a testa dos cartapácios, até pode vir mais cedo, à hora a que começa a fazer frio nas esplanadas. Suponho.

O diligente Reboredo, que lhe entregou esta em mãos próprias, já delineou o festim. Sim, haverá alface e ele pessoalmente encarregou-se de comprar umas bagas Goji e duzentas e cinquenta gramas de sementes de chia. Não morrerá de inanição. Caso decida abrir uma exceção nesse caminho para o ascetismo nepalês ou tibetano, ou lá o que é, haverá também comida de gente humana, aquelas coisas que se comem nesta época e que têm, oh horror! capacidade de não só matar a fome, como de deixar um homem plenamente satisfeito. «Canja, sopa de ervas, arroz de marisco, bacalhau de cebolada, pescada frita, frango com ervilhas, salsichas com couve, chispe, mãozinhas de carneiro, vitela estufada, vitela assada, lombo de porco, cabeça de vitela com feijão, pato com azeitonas, orelheira, rim, carne para bifes, tudo pronto, preços sãos, vinho do lavrador, a rica amêndoa torrada!», diria o nosso Eça. Nem tanto, mas lá perto.

Estou aqui a ser acusado de crueldade psicológica extrema para com o meu amigo, por alguém ao lado, que vai lendo o que eu escrevo, e carpindo-o, com o belamente esculpido queixo espetado no meu ombro. Lavro o meu voto de protesto à palavra «extrema»! E já agora, antes de me despedir, deixe os meus votos de boas festas às suas leitoras e aos seus leitores (você terá leitores, homem, naquele hebdomadário que publica nas internetes; não apenas leitoras).

Não se esqueça, nem se atrase. Aqui ao lado, de cada vez que demora um minuto a mais do previsto, pensam de imediato que foi deportado, ou, com sorte, raptado sem pedido de resgate. E então, são umas lamentações que deixariam Jeremias acabrunhado, digo-lhe eu.

Aceite um abraço deste que muito o estima e considera,
J. Eustáquio de Andrada

3.12.16

Entre o momento zero e o não momento infinito

Entre uma imagem tua
e outra imagem de ti
o mundo detém-se.
Em suspenso. E a minha vida
é um pássaro pegado ao cabo
de alta tensão,
depois da descarga.

[Mudado para português, a partir de Chantal Maillard.]

27.11.16

Caderno diário

Do pássaro do beiral, nem pio. Aguardei ouvir um trinado que fosse antes de ir à janela: nada. Claro que agora o compreendo. Com este sol radioso de primavera tardia pós-dilúvio, o que faz um canouro que se preze preso num beiral? No lugar dele, nem já cá estaria: andaria pelos céus do rio, pelas areias do mar impaciente, pelas árvores acolhedoras. No lugar dele, digo. No meu, vou à procura de uma esplanada para tomar um café tardio. É o mais que consigo fazer e, creia-me a leitora, já não é pouco.

26.11.16

Caderno diário

No meio da bátega de chuva, não, do dilúvio universal, que me despertou hoje, e antes de mergulhar na leitura de memórias de vitorianos céticos quando não cínicos, pareceu-me ouvir uns trinados no beiral. Vicente Aleixandre escrevia a sua poesia no estado de semi-sonolência, imediatamente antes de adormecer. Eu, Aleixandre não sou. Talvez tenha que me contentar em ouvir um pássaro, porventura ensopado, pobre canouro, no beiral, em estado de semi-sonolência (eu, não o dito trinador). De vez em quando surge, assim como um trovão, uma vaga de saudade do pássaro. Já não sei se ouvi-lo é real ou antes uma coisa mental, como o calor sentido por quem o deseja, ao calor, ardentemente, passe o pleonasmo. Não sei se faz muita diferença, também.

24.11.16

O estranho caso de Tagik, o berbere contador de estórias: digressão por uma biblioteca

A biblioteca, disse-lhe o velho cego, é o universo. E pegou na mão do rei, conduzindo-o no labirinto dos corredores, onde as estantes que ligavam o chão ao teto tão alto que tocava o céu, se esmagavam sob o peso dos livros. Vou perder-me aqui, pensou o rei, ao ensaiar os primeiros passos no corredor. Lembrou-se então de que transportava consigo um saco de sementes de chia, que lhe tinha sido dado por Tajik, o berbere contador de estórias. Rei, havia-lhe dito Tajik, estas são as sementes mágicas que fazem com que os índios Tarahumara, das distantes terras quentes de outro continente, corram centenas de quilómetros sem nunca se cansarem. Parecem, os índios, nascidos para correr, acrescentou Tagik desafiando o ceticismo da corte. Disto se recordou o rei e enquanto o velho cego o conduzia, foi deixando cair as sementes pelos corredores. Se as sementes eram para os corredores, era nos corredores que agora estavam. Riu-se de si para si, com o seu chiste, o rei, que apreciava como ninguém um bom trocadilho. O velho cego abria os livros e deles entoava bocados de histórias ao rei boquiaberto com a visão de quem, não vendo, tão bem lia. Afinal, pensou o rei, se a biblioteca é o universo, e a biblioteca é onde vivem as histórias, há tantas histórias quantos os átomos do universo. Há mais histórias do que homens – concluiu o rei, que era bom a fazer contas de cabeça. Mas se há mais histórias do que homens, onde se originam? O rei já tinha mais perguntas do que respostas. O velho cego, parado no corredor, fitava-o agora fixamente, com o olhar na direção do infinito. Eu, que tantos homens fui, dizia, nunca fui aquele em cujo abraço desfalecia Matilde Urbach. Mas quem diabo é Matilde Urbach, e o que é que está a fazer nesta biblioteca? perguntou-se o rei. Tomou nota mental para perguntar a Tagik, caso alguma vez voltasse a ver o berbere. Pensando nisso, achou que estava na altura de voltar às viagens. Só tinha que sair da biblioteca, deixar o velho guardião, encontrar a porta, banhar-se na luz. Felizmente, tinha deixado cair as sementes de chia, teria apenas que seguir a pista de volta. As sementes, as sementes… onde estavam as sementes? Ao seu lado, um pássaro azul chilreou satisfeito, de papo cheio. O rei deu uma palmada na testa, quando a consciência da sua condição tomou conta dele. E agora, pensou o rei, que farei no meio da biblioteca, sem caminho de retorno, com o velho cego que não se cala com a Matilde Urbach? A minha rainha lá tão longe e tão vulnerável. Deu-lhe, de súbito, a urgência de estrangular o berbere com as suas próprias mãos. Se ao menos conseguisse sair dali...

22.11.16

Metalurgia dos sentimentos

Talvez um dia descubra qual o metal base das agulhas da saudade. Não que isso impeça o respetivo avanço irreversível, menos ainda me permita criar algum antídodo, inútil, mas para lhes poder dar nome, a cada agulha, para poder designá-las com especificidade, com precisão. Não as podendo vencer, saberei de que matéria são feitas e que as tornas de tal modo eficazes. O conhecimento será, ao menos, e assim me iludo, um bálsamo parcial.

19.10.16

O rating da república

Fosse eu o responsável pela avaliação do país numa agência dessas de rating, das quais depende que o Banco Central Europeu continue a comprar a dívida da república como se fossem pastéis de nata quentes daqueles lá do café do Chico e havia de manter o dito rating sempre abaixo da linha de água, à beira do afogamento por exaustão de oxigénio enquanto os habitantes deste rectângulo continuassem a tomar como ofensa pessoal, crime punível com abalroamento, as mudanças de faixa devidamente assinaladas, atempadamente piscadas, mas que ainda assim, ainda assim leitora, levam a que quem vem à distância de centenas de metros, se sinta na obrigação de acelerar para fazer sentir a quem muda de faixa que é um salafrário, que vai passar a ocupar também a faixa de quem vem centenas de metros atrás, e que isso não se faz, é uma usurpação, um desaforo, um desatino. E eu, se fosse dessas agências, era capaz de me armar em Valente, Vasco Pulido Valente, ser pessimista irremissível, achar que este país não tem conserto, e dar uma nota daquelas de chumbo sem direito a revisão de provas. Porque a parte não é o todo, uma sondagem não é um censo, mas a amostra, a minha amostra, leitora, é diária, de quem anda de carro na cidade, a qualquer hora, e isto sucede preocupantemente amiúde. E é um sinal cultural relevante, o que os mercados chamam um evento significativo. E diria na minha recomendação, e era capaz de ser paternalista, aprendam a portar-se na estrada como habitantes de um país do primeiro mundo, se querem ter um rating do primeiro mundo. Até lá, andarão no clube dos que não saem da cepa torta. Talvez assim a tal amostra que encontro todos os dias, e se tenta encontrar comigo imediatamente em primeiro grau, entendesse. Tivesse eu a certeza, leitora, tivesse eu a certeza...

6.10.16

Como dois violinos em concerto


Bach, Concerto para dois violinos em Ré Menor

22.9.16

Veroño

O calendário pode assinalar a mudança, mas eu agarro-me ao verão por mais um bocadinho. Ainda noto sinais dele na sombra que projeto nos arbustos abertos em verde, na esplanada que me acolhe e me mantém o café quente enquanto me alongo nas escritas inconsequentes, no coral dos pássaros que ouvi agora mesmo. Adoto um termo castelhano para esta transição, até o mantenho no original: veroño. Os outros que se mudem para o out(r)ono. A minha estação é o veroño.

8.9.16

Carta acerca da ralação

Recebo, aqui no lugar de retiro, um envelope grande endereçado pela esferográfica veloz de Dona Ilda, com a escrita da mão férrea que governa as minudências terrenas da minha existência. Lá dentro, entre outras, uma carta escrita com a caligrafia inconfundível de J. Eustáquio de Andrada, desenhada pelo aparo de polição perfeita da S. T. Dupont Olympio. A tinta, desta vez, ostenta um belíssimo tom sépia: para o grande Andrada, setembro merece a estreia de uma cor outonal.

«Meu muito estimado amigo,

O doutor Samuel Johnson dizia que nenhum homem consegue saborear os frutos do outono enquanto deleita o seu olfacto com as flores da primavera. Ora o meu amigo sabe que eu sou pessoa para almejar sol na eira e chuva no nabal, que é como quem diz, os frutos do outono e as flores da primavera. Acontece, meu prezado, que as flores da primavera aqui ao meu lado, lacrimejam de ralação, por ausência de notícias de pauvre, pauvre J. Já de tudo foi aventado por aqui: que se alistou na legião estrangeira, que embarcou num novíssimo Titanic ou, o pior de tudo, que se perdeu a atravessar a rua e não conseguiu encontrar o caminho para casa (será decerto o primeiro a concordar que, dessa cabeça, tudo é de esperar). Já o deram como estropiado, finado, até raptado. Homem, por quem é: dê notícias! O cheiro das lágrimas aqui da flor da primavera já se tornou irrespirável. Eu, neste meu outono frutuoso, quero é descanso e não ralações por interposta flor primaveril. Bem sei que deve estar oculto numa esplanada onde sirvam sumo de alfafa decantado em casca de coco, e com um abundante suprimento de rama de nabo ou lá essas invenções de que se alimenta. Imagino que já tenha entabulado amizade para sempre com todos os profissionais de hotelaria e turismo da zona, que saiba tudo sobre as respetivas ascendências e descendências, que seja especialista encartado nos males de coração dos ditos, quiçá confidente, psicólogo, pároco, confessor. Tudo isso consigo ver. Só não vejo é motivo para que eu tenha que passar os dias a ouvir lamentos de pauvre, pauvre, J. como se o meu estimado estivesse já a jogar ao dados com Dante, sem o estar. Ainda se estivesse… Está, portanto, intimado a dar sinal de vida, sem delonga. Depois, pode voltar a reconfortar a alma com sumos de alfafa, todos os que quiser e suportar!

Deste que muito o preza,

J. E. de Andrada»

1.8.16

Férias a convite

Recebo uma carta escrita pelo punho do próprio J. Eustáquio de Andrada, na inconfundível letra treinada nos clubes de caligrafia de Oxford. A tinta, azul cobalto, tem a gradação de traço que apenas a suavíssima S. T. Dupont Olympio confere. 

«Meu muito estimado amigo, 

Fontes que não irei identificar, mas que aqui ao lado limpam uma lágrima saudosa ao canto do olho, afirmam que o meu amigo, chegados que estamos ao primeiro de Agosto, não tem quaisquer férias marcadas. Presumo que estará a ponderar passar o mês nalguma esplanada, na companhia dessas profissionais de hotelaria e turismo a que chama Donas, quando não está com as orelhas enfiadas entre cartapácios bafientos. Pode não ser o melhor plano, mas é um plano, convenhamos. Não conheço mais ninguém, tirando o meu amigo, com tal plano, mas é um plano, convenhamos novamente. 

Ora bem, como sabe, o meu amigo é como se fosse um filho para mim, e por inerência, de Orchidée, esta flor que ilumina o meu ocaso. Claro que entenderá que filho meu seria homem de rijezas, de cartuchos, perdizes e saudável vernáculo. O meu amigo, que vive entre cozinheiras de restaurantes onde só se serve carpaccio de alface obviamente não podia ser meu filho, mas façamos de conta, para simplificação do raciocínio.

Eu e a dulcíssima Orchidée, esta sua mãe aqui ao lado, por assim dizer, que soluça pauvre, pauvre J. a cada passo, temos mais casa de férias do que a que precisamos, na Herdade de Andrada, mais cavalos do que precisamos, mais sombra do que precisamos, e finalmente, mais comida de gente do que conseguimos comer. Entenda portanto estas palavras como um convite. Mas não entenda mal, pela sua saúde, porque não o estamos a convidar para comer as sobras, não, não. Será cidadão de pleno direito na Casa de Andrada: entrará um rapazote, pálido, quase tísico, sairá um homem, de boas cores e nédio, até. Uma vida nova, é o que lhe prometemos, nesta sua novíssima família por uma semana, duas, as que quiser e as que conseguirmos aturá-lo. 

Sua mãe, perdão, a brilhante Orchidée, sopra-lhe beijos de ar. Agasalhe-se, que a corrente por eles causada ainda o constipa. O Reboredo irá buscá-lo amanhã, para ajudá-lo a transportar necessaires e assim. 

Aceite um abraço deste que muito o estima, um pai para si, por outras palavras, 

 J. Eustáquio de Andrada»

31.7.16

Paralelismos temporais

Robert Ludlum, o autor da trilogia de Bourne, era um homem do teatro, antes de ser escritor. Seca a fonte da sua escrita — os livros que deixou já foram vertidos em filme — os argumentistas regurgitam numa fita sem qualquer traço dele, apenas os lugares comuns, a súmula do fogo de artifício, sem chama, só artifício. Joanne Rowlling, vem da escrita, e estreia-se no teatro com Harry Potter and the cursed child, a primeira obra com Potter depois de seca a fonte dos sete livros originais (não contando com os derivados). Quem for ler, é melhor saber ao que vai: é uma peça de teatro, melhor, o argumento de uma peça de teatro — até indica no fim quem são os atores que atuaram ontem, na estreia. Talvez seja uma história requentada de Potter, e quem a ler como se apenas de outro livro de Rowling se tratasse, sentirá desilusão, talvez profunda. Mas quem ler o argumento de uma peça de teatro, bem, estamos a falar de algo absurdamente complexo de imaginar em palco — e perguntar-se-á, múltiplas vezes, Como é que se encena isto? Talvez absurdo seja subestimar a complexidade de recrear tudo o que se passa no livro que é, recorde-se, o argumento final, aquele que quem tiver bilhete para hoje, verá no Palace Theatre, em Londres. Se há lugares comuns em The cursed child? Inúmeros, tantos os que quem conhece a escrita da escritora escocesa, consegue imaginar — e mais alguns. Mas pelo meio há pérolas que podiam ter sido escritas por Tom Stoppard. Ou talvez esteja a ser demasiado condescendente, mas creio que não. Enquanto via Jason Bourne lastimava a ausência de um argumentista competente e a falta da mão de Ludlum. Enquanto lia The cursed child, abençoava a existência de um argumentista competente, obviamente com a omnipresença de Rowling. Tanto um como o outro exemplares de cultura popular são absolutamente dispensáveis: o espetador, ou o leitor, que tenham outras prioridades, nada perdem se faltarem a estas. Mas este leitor ficou com vontade de ver a peça ao vivo, mesmo já com as surpresas devidamente estragadas. Se for, sei ao que vou. Mas apetece-me ir, ainda assim.

[O título deste texto é uma referência ao que se passa no livro, mas este não é lugar para spoilers.]

19.7.16

Navegador

O barco balouçou ao primeiro pé, e estabilizou miraculosamente ao segundo; equilibrou-se. O sol, no horizonte, assinalou-lhe o caminho. Assestou a mão em cunha sobre os olhos, para melhor avaliar o percurso longo; soltou as amarras; desfraldou as velas. Sentiu o estalar das madeiras, ouviu o som de chicote do cordame. Encheu os pulmões com o ar do molhe, como se tivesse toda a viagem para o respirar. Olhou para trás: em terra ficou apenas um homem de vago olhar: ele próprio. Olhou em frente — e não mais se olhou.

8.7.16

Da arte da voz e de outras artes

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, que noutros tempos foi professor de literatura portuguesa em Oxford e que atualmente é tutor dileto da dulcíssima Orchidée nas artes de bem aproveitar todos os dias da vida.

«Meu tão estimado amigo,

Então o meu caríssimo fala, dizem-me. Não só fala, como recita. E não só recita, como grava. E há quem o ouça, dizem-me também! O meu amigo virou radioamador lá nisso das internetes, locutor de telefonia com fios, Fernando Pessa dessa BBC que funciona vinte e oito hora por dia, sorvedoro de horas, engendradora de olheiras, mirradora de orelhas.

Roufenho, dizem-me também, fontes que não irei revelar, nem sob a mais tenaz tortura (só as cócegas da minha Orchidée me fazem confessar até o assassínio de Lincoln, sim, eu sou John Wilkes Booth). Rouco e de voz sumida ao fundo do túnel, anti-herói perdido no seu labirinto, sem Ariana nem fio dela, perdido de fio a pavio. Que de Roma e Pavia já se sabe, são como as obras de Olíssipo, hão-de terminar um dia.

Belas dicções há entre os seus confrades lá dos hebdomadários das internetes, dizem-me as mesmas fontes incógnitas que suspiram aqui ao lado. Ao lado delas e deles, meu amigo, parece um disco de vinil a tocar em rotação lenta.

Pauvre, pauvre J. ouço. Ora o meu amigo, que parece passar os dias enfronhado em tomos absurdos, e dedica as suas horas vagas a discutir os temas prementes da confecção de brigadeiros com as cozinheiras das casas de chá que frequenta, é o alvo dileto da compaixão desta que ilumina o meu ocaso com o fulgor resplandecente da sua juventude.

O que o meu estimado precisa, para além de uma vida, claro, é de uma boa dose de hidromel, para ver se aclara essa lassas e oxidadas cordas vocais. E depois do hidromel, os laureados faisões do nosso Reboredo, a ver se come algo que tenha marchado sobre a terra, em vez dessas raízes e sementes de que parece subsistir (isto quando não está a confabular com cozinheiras de casas de chá, não sei se já referi).

Está pois intimado a comparecer na casa d’Andrada amanhã, antes do anoitecer. Não se atarde, porque o Reboredo anda com saudade de o ouvir, não a falar, mas a cantar. Outras artes, outras vozes.

Deste que muito o estima e o considera e da suspiradora incógnita aqui ao lado,

J. E. de Andrada & Orchidée»


26.6.16

Daqui a pouco

Daqui a pouco irei ao café do Chico, e ele receber-me-á de braços abertos e passo dançante, falará do jogo que eu não vi, do golo in extremis que ele viu, falaremos de Inglaterra que ele nunca viu e de Espanha, que vimos ambos. Falaremos do mar que nos falta, a ele também, e para compensar, dar-me-á um café mais forte — o truque é simples, basta um breve puxão no dispensador, mais meia dose de café num café normal, e eu receberei o café diretamente no cérebro como uma injeção de adrenalina. E talvez veja o Sandro e a Lara, e talvez o Chico me pisque o olho, dizendo sem dizer, que o Chico sabe tudo, sabe mais que um presidente e um assessor em conjunto. E comerei um pastel de nata, e se a fome de doçura apertar, talvez um segundo, e a mulher do Chico trará depois os rissóis ainda quentes, e no meio de dois beijos, um para cada face, que não há poupanças no que importa, dir-me-á para não me queimar — nos rissóis, evidentemente. E eu deixarei o meu melhor sorriso com ambos e sairei para o sol um homem novo. Mesmo que seja o mesmo, saio sempre novo, do café do Chico.

25.6.16

Pompa e circunstância

Recebo uma carta do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora jubilado nos braços da dulcíssima Orchidée. 

«Meu estimado amigo, 

Dizem-me fontes que costumam estar bem informadas sobre a sua pessoa, e que não denunciarei, principalmente por estarem aqui ao meu lado, que o meu amigo parece lamentar nesse seu hebdomadário nas internetes, que o veredito popular do meu país de adoção se tenha inclinado para a porta de saída. Não me espanta: sempre achei que isso de se alimentar sobretudo de ervas deveria toldar-lhe a mente, mais cedo ou mais tarde. O resultado está à vista. 

Ora o meu amigo não enxerga que a saída é melhor para toda a gente? Esta união «tem-te-não-caias» é invenção de continentais. Tudo assente em fardos de palha, em vez de sólido betão. A casa de um inglês é o seu castelo, como o meu amigo bem sabe. E quando ameaça deixar de ser, levantam-se as pontes, soltam-se os jacarés, atira-se o pez a ferver. Foi o que aconteceu. Os continentais são uns lassos. Agora fazem voz grossa, mas ouve-se o esganiçar galináceo lá por trás. Estão aterrados. 

Então o meu amigo acha que as casas que mexem com dinheiro que se veja se vão mudar para Frankfurt? Para ficaram na obesa supervisão da Ângela e do Wolfgang? Fat chance, como se diria na Velha Albion. 

Não, meu amigo, ao sair, a Inglaterra será mais forte. O dinheiro não tem pátria. A Inglaterra livre dos olhos indiscretos de Berlim, e da sua sucursal em Bruxelas, será a não pátria do dinheiro, que afluirá a Southampton em frotas de navios carregados de lingotes (é uma forma de dizer), como nunca na história. Frankfurt é que se mudará para a City, meu prezado amigo, não o contrário. 

O tempo é de celebração e não de apreensão! 

Junto segue um convite para um jantar amanhã à noite, aqui na casa de Andrada. Orchidée, esta luz que encurta os meus dias e alonga as minhas noites, está aqui aos pulinhos com a perspectiva de o ver finalmente a comer comida de gente e não esse alpiste de canário que, evidentemente, lhe rouba a lucidez e a força anímica. 

Homem, arrebite, apanhe sol, deixe os alfarrábios polvorosos, apareça. Tocaremos Elgar, faremos a nossa noite de Proms, cantaremos 'God Save the Queen'. E ainda o salvaremos a si, vai ver. 

 Deste que muito o preza, 

 J. E. de Andrada»

21.6.16

Circunavegações de um palavreador

A Terra é redonda, disse ela, para que quem parte, ache sempre o caminho de regresso.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

5.6.16

Máquinas inquietas e outros milagres

Deixou de dar corda ao relógio de areia numa derradeira tentativa de parar o tempo.

[Fred Serras]

4.6.16

Uma introdução geral à teoria do som das palavras

Não são palavras, se não nos desenlaçam a alma ao ouvi-las.

[Fred Serras]

3.6.16

O lunático com os pés na relva

As fómulas da física são algoritmos de compressão do universo.

[Compactado a partir de uma afirmação de Elon Musk, obviamente um parente distante de Fred Serras: o título foi pedido de empréstimo a um verso de Roger Waters.]

2.6.16

O palavreador transforma o tempo em harmónio

A eternidade pode ser momentânea se a observarmos de perto.

[Fred Serras]

1.6.16

O palavreador encontra uma metáfora para a luz

O sol é como o teu rosto.

[Fred Serras]

Eterna é a noite

Tão perto da meia-noite, tão longe dos seus lábios.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

31.5.16

Um encontro do palavreador com o seu reflexo

Entrei no labirinto para que os medos que me seguem se desorientassem.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

30.5.16

Lamento do palavreador embalado em vácuo

Se depois de tanto procurares, encontrares algo dentro de mim, não mo leves. Pode ser a única coisa que me resta.

[Da obra apócrifa e inédita de Fred Serras, poeta da perdição.]

22.4.16

Update

A dulcíssima Orchidée ao volante, o brilhante J. E. de Andrada de pendura e eu -- no banco de trás, com um livro de Calvino como bagagem.

21.4.16

Epístola sobre os hebdomadários de cavalheiros

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo aparo da S. T. Dupont de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a residir no abraço envolvente da dulcíssima Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Levado pela mão gentil de Orchidée, esta musa que ilumina os dias do meu ocaso, andei a ver isso dos hebdomadários nas internetes, como esse de que o meu amigo é editor, ou redator ou tudo por atacado. Percebi que há uma categoria, um segmento, como diria o nosso Moraes, dos hebdomadários de cavalheiros. E concluí, depois de prolongada deliberação —  e alguns protestos audíveis de pauvre, pauvre J — que o meu prezado não está nesse mundo. Aliás, há muito que julgo que nem neste está, mas isso seria uma longa conversa. 

Nos hebdomadários de cavalheiros, os estimáveis editores sabem daquelas coisas elementares da vida, que se aprendem desde, direi, um bom berço:

— Sabem diferenciar Bolívar Belicosos de Ramón Allones, ainda que vendados. O meu amigo, se lhe dessem um cigarro de barbas de milho a experimentar feneceria, qual Caio Júlio César sob a adaga de Bruto.
— Sabem distinguir um Carrera S de um Carrera Turbo, num dia de nevoeiro, apenas pelo som que fazem ao passar por um semáforo amarelo tintado de vermelho. O meu amigo aproveita todos os amarelos tintados de qualquer cor para digitar no teclado desse seu telefone dito inteligente. Mas muito tecla, criatura; quem tem tanto para teclar? (aqui ao meu lado, alguém insiste: pauvre, pauvre J).
— São visitas de casa de Adrià, almoçam no Gagnaire, ceiam no Bottura. O meu estimado alimenta-se de tofu, rúcula, abóbora e, num dia bom, junta-lhe, num gesto de extravagância, umas rodelas de beterraba.
— Já jogaram, pelo menos, no Royal Dornoch e em Pine Valley. O meu estimado, se lhe passassem um putter para a mão, ainda assassinaria algum pássaro distraído. 

Após tal investigação, concluí que o meu amigo não tem qualquer futuro, visível ou invisível, nisso dos hebdomadários das internetes, no ramo de atividade dos de cavalheiros. Nem noutro qualquer, conforme deduzi.

Conhecendo o seu espírito macambúzio, meditabundo e romântico-depressivo, imagino que esteja, por esta altura, a olhar já para os horários dos comboios da linha da Ajuda (há comboios para a Ajuda, não há?). 

Antes que tenhamos que mandar recolher o que de si restar à Calçada do Mirante, ou ladeira limítrofe, o melhor é vir passar o fim de semana à Casa de Andrada (ouço uns gritinhos que mais parecem miados de gato aqui ao lado). Apresente-se amanhã por aqui, e irá connosco para a herdade, onde chegará pálido, olheirento e desnutrido e de onde sairá, com alguma sorte, daqui a quatro dias, nédio, rutilante e direito como um pingalim. 

Quem é quem que lhe quer bem, quem é?

Deste que muito o estima e preza.

J. E. de Andrada»

18.4.16

Tudo uma questão de perspetiva

Já nem me lembro onde li — isto é, se procurar bem, descubro — que nunca se ouviu tanta poesia e que, na verdade, também nunca se leram tantas páginas de livros. É tudo uma questão de perspetiva. Toda a gente ouve poesia, e muitos sabemos dezenas de poemas de cor: basta que estejam acompanhados de música. A poesia está nas canções que transportamos, aos milhares, para todo o lado — e ouvimos em qualquer altura. Quem isto dizia, acrescentava também que os sete volumes de Harry Potter fazem duas vezes o tamanho da Guerra e Paz, que é um livro de dimensão apreciável. Poucos escritores, se é que alguns, terão atingido, ao longo de toda a vida, a fortuna que Joanne Rowling, a autora da saga de Potter, conseguiu a meio da sua. 

Enrolado nestes pensamentos no trajeto para casa, conjeturei: será melhor incensar Tolstoy e ignorar Rowling ou saber de isqueiro na mão o Homem do Leme e nunca ter lido um poema de Fiama? E não encontrei ainda a perspetiva certa.

5.4.16

Ana, Natália e os gostos

Gosto de ler a Ana de Amsterdão. E continuarei a gostar igualmente de ler a Ana de Amsterdão mesmo que a Ana Cássia Rebelo goste menos de ler a Natália Correia por esta não ter gostado de Bach. E eu gosto de Bach.

2.4.16

Haver Dever

Escolho a cápsula preta, coloco na máquina, o manípulo emite um clique reconfortante, o líquido aromático flui com reconfortante previsibilidade. Sento-me junto à janela, a olhar as árvores reconfortantes, procuro o sol hesitante, ainda distante. Folheio o Expresso: página após página a previsibilidade, também. Menos reconfortante, esta. Dívidas nas páginas ímpares, imparidades nas pares. Retratos do país do dever acima de tudo, como diria J. Eustáquio de Andrada, sempre reconfortantemente atento.

27.3.16

Escrevendo

Tendo passado uma parte irrazoável das minhas horas menos afobadas nos últimos meses a ler diários e cadernos de apontamentos de escritores sedimentei o que já sabia, mas que ainda assim me soube bem confirmar: quem gosta de escrever não consegue colocar um ponto final à urgência de grafar os pensamentos — e se o fizer, sofrerá de tal sentimento de perda que não torna improvável a recaída. Aplica-se isto aos diaristas, como aos bloggers, que o fazem pela pulsão da escrita, substituindo o papel pelo ecrã, a caneta pelo teclado, a privacidade pelo anonimato público. Se me disserem que os blogs estão a morrer, rio-me. Só nas últimas semanas li magníficos blogs de Samuel Butler, de Cioran, de Susan Sontag, de Vergílio Ferreira. Todos antecederam a existência das plataformas de blogging, todos sobreviverão quando elas forem irreconhecíveis. O blog, ou o diário, ou o caderno de apontamentos, são apenas a materialização de uma vontade primordial: a de guardar o mais longamente possível o tempo que se escoa, inexorável. O meio onde (debalde) o tentamos prender mais não é que um pormenor. E o menos importante, afinal.

25.3.16

A senhora condessa, regressada

Cheguei do café do Chico onde, quando ia a entrar, vinha a sair Margarida Eduarda, há que anos não a via, e acompanhava-se da mãe, e do padrasto, e do marido, e de mais uma comitiva de gente minha desconhecida. Casou e eu sabia que tinha casado, o marido foi-me apresentado, e falámos de viagens e de tempo, que é o refúgio dos que nada têm ainda, ou nunca terão, para dizer. Detive-me na face que entretanto arredondou harmoniosamente, sem excessos ainda. E tentei recordar-me de quem é que me fazia lembrar. Há anos, pois há, que não a via, já disse acima, mas a memória não prega tal partida, que seria a de uma face fazer-se recordar a si própria, numa recorrência digna de Escher. Não, Margarida Eduarda trazia-me outra recordação e foi preciso voltar aqui para descobrir: Margarida Eduarda está igual à condessa de Haussonville, pintada por Ingres. Num paradoxo temporal, Ingres pintou quem estava agora à minha frente, ou existiu alguém igual a Margarida Eduarda, no tempo de Ingres, e era Louise de Broglie, a condessa de Haussonville. Não disse ao Chico, nem contei a ninguém: apenas a leitora agora sabe. Ainda achavam que eu via coisas e ao menos a leitora eu sei que não pensaria tal coisa de mim. Palavra de honra.

21.3.16

Notícias sobre a indagação de notícias

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo punho de J. Eustáquio de Andrada, professor do Magdalen College, actualmente retirado nos braços da sublime Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Insta-me a dulcíssima Orchidée a fazer-lhe chegar esta missiva, e só por ser a pedido dela o faço, porque o assunto, meu prezado, não podia ser mais distante do que habitualmente ocupa as minhas células cinzentas, como sabe vastas como a Herdade de Andrada. Diz-me a minha musa solar que esses hebdomadários que se publicam nas internetes atravessam uma crise de ausência dos seus curadores, gente ao que parece relapsa ao cumprimento das suas obrigações. Mas os hebdomadários não têm uma periodicidade fixa, by Jove? E os assinantes não pedem o estorno dos cabedais que aí investem (incompreensível investirem em tais prosas bárbaras, bem sei, mas os labirintos da mente humana são insondáveis)?

Ora o meu amigo faz parte lá desse clube de escrevinhadores, actividade que, aliás, condiz com a sua natureza de merlo intelectual (diz-me a solar Orchidée que anda a ver merlos a todas as horas) e portanto estará em melhor posição de saber porque é que neste mês de Março uns desaparecem, outros se ausentam, outros se perdem. Os idos de Março, meu amigo, parecem ter apeado esses escribas lá da sua guilda. Não foi apenas Caio Julio que caiu neste mês, pelo que entendo.

Por quem é, indague lá, e reporte, se me fizer favor, que a minha orquídea anda deveras intrigada e eu não quero a belíssima fronte da minha diva enrugada por temáticas tão áridas. 

Quanto a si, meu caro, bem sei que nessa sua natureza de eremita não cabem conceitos como celebrações onde constem mais do que você e dois ou três livros — mas se porventura quiser variar de lentilhas e nabos cozidos, ou lá o que é que o mantém de pé, cadáver adiado, como diria o poeta, e aparecer por cá no dia de Páscoa, teremos todo o gosto em recebê-lo com as iguarias de Dona Miraldina, cozinheira ímpar, d’aquém e d’além mar.

Reboredo, o fiel Reboredo, que bem conhece, está ausente em férias e tive que recrutar a Dona, cozinheira emérita da Herdade. Ad augusta per angusta, mas augusta é a arte culinária Miraldina, facto que terá oportunidade de comprovar se aceitar deslocar-se a esta sua casa para celebrar a ressureição do Senhor e se deleitar com o anho de leite que neste momento ainda salta livre como um ribeiro de cristalina água, na Herdade dos egrégios avós da casa de Andrada.

Orchidée, aqui ao lado, sopra beijos de vento para o pauvre, pauvre J. Serem de vento parece-me deveras adequado à cabeça d’aquele a quem se destinam. 

Não leve a mal, meu caro, esta minha natureza chistosa: sabe que é tudo por amizade. Como diria o pai Andrada, o que arde cura. E mesmo que não cure, o arder já ninguém lho tira. 

Aceite os protestos de estima e consideração deste seu, 

J. E. de Andrada»

18.3.16

Música de mesa

Estou longe de ter, como Luís XIV, vinte e um violinistas a tocar para mim às refeições. Nem um, na verdade, não é que lamente, seria incómodo andar com tal pequena banda, assim se chamava a secção de cordas do rei sol, imagine-se o que considerariam uma grande banda, mas adiante, música não me falta hoje. Ao almoço foi cítara, a condizer com a delicadeza das especiarias e agora, aqui onde escrevo estas palavras que a leitora olhará certamente de relance, ao lanche, é algo indizível, que passa numa antena qualquer que não a dois, mas creio que não acederiam a um pedido de mudança de estação, sinto-me tão fora do meu ambiente quanto um tuaregue no polo norte. Abstenho-me de tirar apressadas conclusões sobre retrocessos civilizacionais. Preferia a cítara, pois claro, ou a música de Lully, a dos violinos do rei Luís. Mas talvez seja eu que esteja deslocado no tempo e no espaço, afinal. Ou então a explicação é mais simples: estou apenas deslocado de mesa. Não segui o meu sensato princípio de me sentar na esplanada: mereço este martírio, culpado me confesso.

14.3.16

Um dia, quando eu já não esperar, regressar-me-á a vontade de ler ficção. Pegarei nalgum tomo daqueles que me tentam nas visitas tri-semanais às livrarias, afundar-me-ei no sofá e embrenhar-me-ei horas perdidas, como quando lia Hemingway de Paris a Kilimanjaro. Mas agora não. As histórias, diz Gottschall, são simuladores da vida real, preparam-nos para as situações que enfrentaremos no escoar da clepsidra dos dias. Não lendo ficção, não leio histórias. Não simulo, o que significa que os dias me colhem impreparado, ingénuo até. Viverei ou morrerei, figurativamente falando, pela minha espontaneidade. Até voltar a ler ficção, levarei esta existência de fogo-fátuo. Depois de a voltar a ler, provavelmente também.

6.3.16

Passacaille

Jean-Baptiste Lully, Passacaille, de Armide

23.2.16

Um segredo

Não posso dizer a Dona Aureliana, nem a Dona Patroa, menos ainda ao Chico, que descobri um café daqueles que são vendidos em cápsula de alumínio, até parece assunto sério, mas o que descobri não é anunciado por atores americanos em villas sobre lagos italianos, dizia eu, descobri um café desses, que sabe mesmo como eu gosto, e que é assim forte, capaz de ressuscitar um sobreiro fenecido e com notas de amargo pronunciadas, vertiginosas, com sotaque de a sul do equador. Não posso dizer, não entenderiam — mas não lhes ameaça o negócio. Eu gosto é da esplanada e da palheta e isso ainda não cabe na cápsula. Já o café — é bom, este. Tão bom como os deles. Por isso, não posso dizer: é o meu segredo de hoje.

13.2.16

Carta sobre o sumiço do Reboredo

Recebo uma carta, manuscrita por J. Eustáquio de Andrada, com a caligrafia treinada nos clubes adjacentes ao Magdalen College, em Oxford, de onde o magnífico professor se retirou para os braços da cintilante e nunca por demais cantada Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Chegam-me notícias desse mundo lá das internetes, onde o meu prezado mantém o seu hebdomadário. Sussurram-me fontes incógnitas que o meu amigo tentou encerrar a publicação que penosamente mantém, e que pelo menos uma pessoa, que eu saiba, tem a paciência de ler, mas que tal intento saiu gorado. Dizem-me ainda tais fontes que uma visita de Reboredo, aquele rapaz que trabalha lá na herdade, e que é pegador no Grupo de Forcados do Barrete Encarnado, talvez tenha tido alguma influência no seu recuo face a tal decisão irrevogável. 

Acontece, meu estimado amigo, que Reboredo, esse globe-trotter treinado nas escolas de Mayotte e de King Saul Boulevard, desapareceu. Carlyle dizia que sem pressão não há diamantes. Ora Reboredo é um diamante, meu amigo. Reboredo tuteia a pressão. Teria que existir motivo de força maior que pressão para Reboredo levar tal sumiço. Suspeito que haja mão de gente disso das internetes nesta ausência inesperada do indispensável ortopedista. 

Bem sei que o meu estimado vive nesse seu mundo almofadado, climatizado e liofilizado, nessa sua Torre de Ramires, onde pontificam alfarrábios bafientos, desamores e pássaros canoros à janela. O mundo decadente de um romântico deslocado dois séculos, em suma. 

Mas, por obséquio a este seu amigo, rogo-lhe, tente-me lá saber do homem. Há ali alguém a fungar para que enderece um convite ao pauvre, pauvre J. para vir cá jantar amanhã e, sem Reboredo, não haverá aqueles famosos faisões para repasto. Ora isto é uma falha imperdoável. Por quem é, procure lá nisso das internetes e dê-me novas.

Não se esqueça de aparecer amanhã, mas de preferência envie o Reboredo em avanço. Já não se aguentam por aqui os guinchos de desespero dos faisões que esperavam ser servidos em mesa condigna no jantar de domingo.

Deste que muito o preza,

J. E. de Andrada»

8.2.16

Colecionador de livros e luz de estrelas

Césaro, que teve loja de porta aberta na Rua Direita de Alfache durante mais de setenta anos, era também um grande colecionador de livros. Na loja de Césaro vendiam-se folhas de papel à unidade ou à resma, soltas ou agrafadas. Na loja da Rua Direita, o cliente podia encontrar papéis de todas as cores e gramagens. Havia até papéis feitos de penugem de urtiga branca, que só se encontra em Sumatra.

À loja de Césaro acorriam as gentes de cidades remotas, em busca dos papéis mais finos, e das tintas mais delicadas. Dizia Césaro que para cada papel existe uma e apenas uma tinta. É a tinta gêmea do papel. Césaro mostrava aos clientes: se a tinta for gêmea, o seu traço sobre o papel reflete o Sol, se for de dia, e a estrela polar, se for de noite. A biblioteca de Césaro tinha vinte estantes apenas de livros sobre papéis e tintas.

Quando a Barqueira veio em busca de Césaro, apresentou-se com um livro sobre os papéis de Clóvis como presente. Era um livro que faltava a Césaro, um livro que ele tinha procurado toda a vida. Clóvis havia sido o maior fabricante de papéis que jamais existira e o avô de Césaro orgulhara-se de o ter conhecido, numa visita que o artista havia feito, a seu tempo, a Alfache. Perante o livro, Césaro soube que a sua coleção estava finalmente completa.

Irmino, o presidente da Câmara de Alfache foi, depois do funeral, à loja de Césaro e encontrou o livro sobre Clóvis ainda em cima do balcão. Veio lê-lo para a porta. Uma avultada lágrima rolou-lhe então pela face quando, aberto o livro na primeira página, descobriu que a primeira capitular refletia a estrela polar e cada uma das outras letras, tinha uma luz diferente e única. Irmino olhou para o grande firmamento e seria capaz de jurar ter visto por lá Césaro, a colecionar estrelas.

27.1.16

Reboredo, um ortopedista ao seu dispor

Recebo uma folha de papel A4 por baixo da porta do escritório, de onde bucolicamente observo as árvores espraiando-se como fractais contra o céu vestido de branco em cama de azul. A escrita, a letra larga e redonda, é a esferográfica vermelha.

Meu muito estimado doutor J.

Escrevo esta mensagem a pedido do senhor professor Andrada. 

Solicita-me o senhor professor que venha apresentar as minhas credenciais e os meus préstimos ao senhor doutor. Como talvez o senhor doutor saiba, depois de uma comissão de serviço como ortopedista na Legião Estrangeira francesa, entrei para o serviço do senhor professor, a quem ajudei a resolver uns pequenos problemas nas herdades no Alentejo e nos terrenos que a família Andrada possui no Brasil. Frequentei, depois, cursos de actualização e aperfeiçoamente da minha arte na faculdade de King Saul Boulevard. Sempre com excelentes classificações, afirmo, sem falsa modéstia.

É com orgulho que posso afirmar que sou considerado um especialista de primeira água em certas e determinadas questões do foro ósseo. A minha obra fala por si e o senhor professor Andrada poderá dar de mim as melhores referências.

Chegou aos ouvidos do senhor professor, através de diligências da menina Orchidée, que o senhor doutor J. poderá vir a necessitar das minhas competências muito em breve. Solicita-me o senhor Professor que permaneça junto à porta do escritório do senhor doutor até que o senhor doutor tome decisões que podem, ou não, implicar a minha intervenção. 

A minha paciência como afirma, e bem, o senhor Professor, só tem par no brio com que exerço o meu ofício.

Aproveito para apresentar os meus protestos da maior estima e consideração.

Reboredo

Assistente do senhor professor Andrada. 
Ortopedista.

5.1.16

Caderno Diário

Há uns seis meses, passaram tão depressa, que não ouço o pássaro no beiral. Hoje acordei para lá de cedo e lembrei-me dele. Se lá estivesse, era eu que o ia despertar. Abriria a janela e iria assobiar até ao pé do desinfeliz, acordá-lo-ia estremunhado. Não sei assobiar nenhuma marcha daqueles de tamborileiro, menos ainda daquelas de tambores de tamanho familiar, à maneira d'O Ó Que Som Tem, mas era capaz de ajeitar-me com a Ritirata Notturna de Madrid, de Boccherini, mais suave, mais galante, até parece passo de faisão. O pássaro, por onde andar, não deve ler este hebdomadário que se publica nas internetes, senão é que não voltava, assustado, com medo das partidas, ou Partitas, musicais que este escriba lhe pudesse pregar. Mas caso leia: pássaro do beiral, onde estiveres, podes regressar em sossego. Prometo não te acordar a desoras com a minha verve musical. Mais, até te volto a fazer outsourcing do meu despertar. Dormia mais e melhor quando te sabia à janela. Não devia dizer-te isto, porque nem tudo se pode contar aos pássaros, ainda ficas todo ufano, de penas altaneiras. Mas o teu lugar lá está, intacto, num brinquinho. E tenho guardadas umas sementes de chia, daquelas que dão a um passaroco o vigor de um pterodáctilo. Tudo para ti, oh canoro fugitivo. Prefiro acordar às seis contigo no beiral, do que às quatro, sei lá tu onde, oh voador. Seu desinquietador.