5.1.16

Caderno Diário

Há uns seis meses, passaram tão depressa, que não ouço o pássaro no beiral. Hoje acordei para lá de cedo e lembrei-me dele. Se lá estivesse, era eu que o ia despertar. Abriria a janela e iria assobiar até ao pé do desinfeliz, acordá-lo-ia estremunhado. Não sei assobiar nenhuma marcha daqueles de tamborileiro, menos ainda daquelas de tambores de tamanho familiar, à maneira d'O Ó Que Som Tem, mas era capaz de ajeitar-me com a Ritirata Notturna de Madrid, de Boccherini, mais suave, mais galante, até parece passo de faisão. O pássaro, por onde andar, não deve ler este hebdomadário que se publica nas internetes, senão é que não voltava, assustado, com medo das partidas, ou Partitas, musicais que este escriba lhe pudesse pregar. Mas caso leia: pássaro do beiral, onde estiveres, podes regressar em sossego. Prometo não te acordar a desoras com a minha verve musical. Mais, até te volto a fazer outsourcing do meu despertar. Dormia mais e melhor quando te sabia à janela. Não devia dizer-te isto, porque nem tudo se pode contar aos pássaros, ainda ficas todo ufano, de penas altaneiras. Mas o teu lugar lá está, intacto, num brinquinho. E tenho guardadas umas sementes de chia, daquelas que dão a um passaroco o vigor de um pterodáctilo. Tudo para ti, oh canoro fugitivo. Prefiro acordar às seis contigo no beiral, do que às quatro, sei lá tu onde, oh voador. Seu desinquietador.