23.2.16

Um segredo

Não posso dizer a Dona Aureliana, nem a Dona Patroa, menos ainda ao Chico, que descobri um café daqueles que são vendidos em cápsula de alumínio, até parece assunto sério, mas o que descobri não é anunciado por atores americanos em villas sobre lagos italianos, dizia eu, descobri um café desses, que sabe mesmo como eu gosto, e que é assim forte, capaz de ressuscitar um sobreiro fenecido e com notas de amargo pronunciadas, vertiginosas, com sotaque de a sul do equador. Não posso dizer, não entenderiam — mas não lhes ameaça o negócio. Eu gosto é da esplanada e da palheta e isso ainda não cabe na cápsula. Já o café — é bom, este. Tão bom como os deles. Por isso, não posso dizer: é o meu segredo de hoje.

13.2.16

Carta sobre o sumiço do Reboredo

Recebo uma carta, manuscrita por J. Eustáquio de Andrada, com a caligrafia treinada nos clubes adjacentes ao Magdalen College, em Oxford, de onde o magnífico professor se retirou para os braços da cintilante e nunca por demais cantada Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Chegam-me notícias desse mundo lá das internetes, onde o meu prezado mantém o seu hebdomadário. Sussurram-me fontes incógnitas que o meu amigo tentou encerrar a publicação que penosamente mantém, e que pelo menos uma pessoa, que eu saiba, tem a paciência de ler, mas que tal intento saiu gorado. Dizem-me ainda tais fontes que uma visita de Reboredo, aquele rapaz que trabalha lá na herdade, e que é pegador no Grupo de Forcados do Barrete Encarnado, talvez tenha tido alguma influência no seu recuo face a tal decisão irrevogável. 

Acontece, meu estimado amigo, que Reboredo, esse globe-trotter treinado nas escolas de Mayotte e de King Saul Boulevard, desapareceu. Carlyle dizia que sem pressão não há diamantes. Ora Reboredo é um diamante, meu amigo. Reboredo tuteia a pressão. Teria que existir motivo de força maior que pressão para Reboredo levar tal sumiço. Suspeito que haja mão de gente disso das internetes nesta ausência inesperada do indispensável ortopedista. 

Bem sei que o meu estimado vive nesse seu mundo almofadado, climatizado e liofilizado, nessa sua Torre de Ramires, onde pontificam alfarrábios bafientos, desamores e pássaros canoros à janela. O mundo decadente de um romântico deslocado dois séculos, em suma. 

Mas, por obséquio a este seu amigo, rogo-lhe, tente-me lá saber do homem. Há ali alguém a fungar para que enderece um convite ao pauvre, pauvre J. para vir cá jantar amanhã e, sem Reboredo, não haverá aqueles famosos faisões para repasto. Ora isto é uma falha imperdoável. Por quem é, procure lá nisso das internetes e dê-me novas.

Não se esqueça de aparecer amanhã, mas de preferência envie o Reboredo em avanço. Já não se aguentam por aqui os guinchos de desespero dos faisões que esperavam ser servidos em mesa condigna no jantar de domingo.

Deste que muito o preza,

J. E. de Andrada»

8.2.16

Colecionador de livros e luz de estrelas

Césaro, que teve loja de porta aberta na Rua Direita de Alfache durante mais de setenta anos, era também um grande colecionador de livros. Na loja de Césaro vendiam-se folhas de papel à unidade ou à resma, soltas ou agrafadas. Na loja da Rua Direita, o cliente podia encontrar papéis de todas as cores e gramagens. Havia até papéis feitos de penugem de urtiga branca, que só se encontra em Sumatra.

À loja de Césaro acorriam as gentes de cidades remotas, em busca dos papéis mais finos, e das tintas mais delicadas. Dizia Césaro que para cada papel existe uma e apenas uma tinta. É a tinta gêmea do papel. Césaro mostrava aos clientes: se a tinta for gêmea, o seu traço sobre o papel reflete o Sol, se for de dia, e a estrela polar, se for de noite. A biblioteca de Césaro tinha vinte estantes apenas de livros sobre papéis e tintas.

Quando a Barqueira veio em busca de Césaro, apresentou-se com um livro sobre os papéis de Clóvis como presente. Era um livro que faltava a Césaro, um livro que ele tinha procurado toda a vida. Clóvis havia sido o maior fabricante de papéis que jamais existira e o avô de Césaro orgulhara-se de o ter conhecido, numa visita que o artista havia feito, a seu tempo, a Alfache. Perante o livro, Césaro soube que a sua coleção estava finalmente completa.

Irmino, o presidente da Câmara de Alfache foi, depois do funeral, à loja de Césaro e encontrou o livro sobre Clóvis ainda em cima do balcão. Veio lê-lo para a porta. Uma avultada lágrima rolou-lhe então pela face quando, aberto o livro na primeira página, descobriu que a primeira capitular refletia a estrela polar e cada uma das outras letras, tinha uma luz diferente e única. Irmino olhou para o grande firmamento e seria capaz de jurar ter visto por lá Césaro, a colecionar estrelas.