25.3.16

A senhora condessa, regressada

Cheguei do café do Chico onde, quando ia a entrar, vinha a sair Margarida Eduarda, há que anos não a via, e acompanhava-se da mãe, e do padrasto, e do marido, e de mais uma comitiva de gente minha desconhecida. Casou e eu sabia que tinha casado, o marido foi-me apresentado, e falámos de viagens e de tempo, que é o refúgio dos que nada têm ainda, ou nunca terão, para dizer. Detive-me na face que entretanto arredondou harmoniosamente, sem excessos ainda. E tentei recordar-me de quem é que me fazia lembrar. Há anos, pois há, que não a via, já disse acima, mas a memória não prega tal partida, que seria a de uma face fazer-se recordar a si própria, numa recorrência digna de Escher. Não, Margarida Eduarda trazia-me outra recordação e foi preciso voltar aqui para descobrir: Margarida Eduarda está igual à condessa de Haussonville, pintada por Ingres. Num paradoxo temporal, Ingres pintou quem estava agora à minha frente, ou existiu alguém igual a Margarida Eduarda, no tempo de Ingres, e era Louise de Broglie, a condessa de Haussonville. Não disse ao Chico, nem contei a ninguém: apenas a leitora agora sabe. Ainda achavam que eu via coisas e ao menos a leitora eu sei que não pensaria tal coisa de mim. Palavra de honra.