27.3.16

Escrevendo

Tendo passado uma parte irrazoável das minhas horas menos afobadas nos últimos meses a ler diários e cadernos de apontamentos de escritores sedimentei o que já sabia, mas que ainda assim me soube bem confirmar: quem gosta de escrever não consegue colocar um ponto final à urgência de grafar os pensamentos — e se o fizer, sofrerá de tal sentimento de perda que não torna improvável a recaída. Aplica-se isto aos diaristas, como aos bloggers, que o fazem pela pulsão da escrita, substituindo o papel pelo ecrã, a caneta pelo teclado, a privacidade pelo anonimato público. Se me disserem que os blogs estão a morrer, rio-me. Só nas últimas semanas li magníficos blogs de Samuel Butler, de Cioran, de Susan Sontag, de Vergílio Ferreira. Todos antecederam a existência das plataformas de blogging, todos sobreviverão quando elas forem irreconhecíveis. O blog, ou o diário, ou o caderno de apontamentos, são apenas a materialização de uma vontade primordial: a de guardar o mais longamente possível o tempo que se escoa, inexorável. O meio onde (debalde) o tentamos prender mais não é que um pormenor. E o menos importante, afinal.