18.3.16

Música de mesa

Estou longe de ter, como Luís XIV, vinte e um violinistas a tocar para mim às refeições. Nem um, na verdade, não é que lamente, seria incómodo andar com tal pequena banda, assim se chamava a secção de cordas do rei sol, imagine-se o que considerariam uma grande banda, mas adiante, música não me falta hoje. Ao almoço foi cítara, a condizer com a delicadeza das especiarias e agora, aqui onde escrevo estas palavras que a leitora olhará certamente de relance, ao lanche, é algo indizível, que passa numa antena qualquer que não a dois, mas creio que não acederiam a um pedido de mudança de estação, sinto-me tão fora do meu ambiente quanto um tuaregue no polo norte. Abstenho-me de tirar apressadas conclusões sobre retrocessos civilizacionais. Preferia a cítara, pois claro, ou a música de Lully, a dos violinos do rei Luís. Mas talvez seja eu que esteja deslocado no tempo e no espaço, afinal. Ou então a explicação é mais simples: estou apenas deslocado de mesa. Não segui o meu sensato princípio de me sentar na esplanada: mereço este martírio, culpado me confesso.