21.3.16

Notícias sobre a indagação de notícias

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto pelo punho de J. Eustáquio de Andrada, professor do Magdalen College, actualmente retirado nos braços da sublime Orchidée.

«Meu muito estimado amigo,

Insta-me a dulcíssima Orchidée a fazer-lhe chegar esta missiva, e só por ser a pedido dela o faço, porque o assunto, meu prezado, não podia ser mais distante do que habitualmente ocupa as minhas células cinzentas, como sabe vastas como a Herdade de Andrada. Diz-me a minha musa solar que esses hebdomadários que se publicam nas internetes atravessam uma crise de ausência dos seus curadores, gente ao que parece relapsa ao cumprimento das suas obrigações. Mas os hebdomadários não têm uma periodicidade fixa, by Jove? E os assinantes não pedem o estorno dos cabedais que aí investem (incompreensível investirem em tais prosas bárbaras, bem sei, mas os labirintos da mente humana são insondáveis)?

Ora o meu amigo faz parte lá desse clube de escrevinhadores, actividade que, aliás, condiz com a sua natureza de merlo intelectual (diz-me a solar Orchidée que anda a ver merlos a todas as horas) e portanto estará em melhor posição de saber porque é que neste mês de Março uns desaparecem, outros se ausentam, outros se perdem. Os idos de Março, meu amigo, parecem ter apeado esses escribas lá da sua guilda. Não foi apenas Caio Julio que caiu neste mês, pelo que entendo.

Por quem é, indague lá, e reporte, se me fizer favor, que a minha orquídea anda deveras intrigada e eu não quero a belíssima fronte da minha diva enrugada por temáticas tão áridas. 

Quanto a si, meu caro, bem sei que nessa sua natureza de eremita não cabem conceitos como celebrações onde constem mais do que você e dois ou três livros — mas se porventura quiser variar de lentilhas e nabos cozidos, ou lá o que é que o mantém de pé, cadáver adiado, como diria o poeta, e aparecer por cá no dia de Páscoa, teremos todo o gosto em recebê-lo com as iguarias de Dona Miraldina, cozinheira ímpar, d’aquém e d’além mar.

Reboredo, o fiel Reboredo, que bem conhece, está ausente em férias e tive que recrutar a Dona, cozinheira emérita da Herdade. Ad augusta per angusta, mas augusta é a arte culinária Miraldina, facto que terá oportunidade de comprovar se aceitar deslocar-se a esta sua casa para celebrar a ressureição do Senhor e se deleitar com o anho de leite que neste momento ainda salta livre como um ribeiro de cristalina água, na Herdade dos egrégios avós da casa de Andrada.

Orchidée, aqui ao lado, sopra beijos de vento para o pauvre, pauvre J. Serem de vento parece-me deveras adequado à cabeça d’aquele a quem se destinam. 

Não leve a mal, meu caro, esta minha natureza chistosa: sabe que é tudo por amizade. Como diria o pai Andrada, o que arde cura. E mesmo que não cure, o arder já ninguém lho tira. 

Aceite os protestos de estima e consideração deste seu, 

J. E. de Andrada»