25.6.16

Pompa e circunstância

Recebo uma carta do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora jubilado nos braços da dulcíssima Orchidée. 

«Meu estimado amigo, 

Dizem-me fontes que costumam estar bem informadas sobre a sua pessoa, e que não denunciarei, principalmente por estarem aqui ao meu lado, que o meu amigo parece lamentar nesse seu hebdomadário nas internetes, que o veredito popular do meu país de adoção se tenha inclinado para a porta de saída. Não me espanta: sempre achei que isso de se alimentar sobretudo de ervas deveria toldar-lhe a mente, mais cedo ou mais tarde. O resultado está à vista. 

Ora o meu amigo não enxerga que a saída é melhor para toda a gente? Esta união «tem-te-não-caias» é invenção de continentais. Tudo assente em fardos de palha, em vez de sólido betão. A casa de um inglês é o seu castelo, como o meu amigo bem sabe. E quando ameaça deixar de ser, levantam-se as pontes, soltam-se os jacarés, atira-se o pez a ferver. Foi o que aconteceu. Os continentais são uns lassos. Agora fazem voz grossa, mas ouve-se o esganiçar galináceo lá por trás. Estão aterrados. 

Então o meu amigo acha que as casas que mexem com dinheiro que se veja se vão mudar para Frankfurt? Para ficaram na obesa supervisão da Ângela e do Wolfgang? Fat chance, como se diria na Velha Albion. 

Não, meu amigo, ao sair, a Inglaterra será mais forte. O dinheiro não tem pátria. A Inglaterra livre dos olhos indiscretos de Berlim, e da sua sucursal em Bruxelas, será a não pátria do dinheiro, que afluirá a Southampton em frotas de navios carregados de lingotes (é uma forma de dizer), como nunca na história. Frankfurt é que se mudará para a City, meu prezado amigo, não o contrário. 

O tempo é de celebração e não de apreensão! 

Junto segue um convite para um jantar amanhã à noite, aqui na casa de Andrada. Orchidée, esta luz que encurta os meus dias e alonga as minhas noites, está aqui aos pulinhos com a perspectiva de o ver finalmente a comer comida de gente e não esse alpiste de canário que, evidentemente, lhe rouba a lucidez e a força anímica. 

Homem, arrebite, apanhe sol, deixe os alfarrábios polvorosos, apareça. Tocaremos Elgar, faremos a nossa noite de Proms, cantaremos 'God Save the Queen'. E ainda o salvaremos a si, vai ver. 

 Deste que muito o preza, 

 J. E. de Andrada»