8.7.16

Da arte da voz e de outras artes

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, que noutros tempos foi professor de literatura portuguesa em Oxford e que atualmente é tutor dileto da dulcíssima Orchidée nas artes de bem aproveitar todos os dias da vida.

«Meu tão estimado amigo,

Então o meu caríssimo fala, dizem-me. Não só fala, como recita. E não só recita, como grava. E há quem o ouça, dizem-me também! O meu amigo virou radioamador lá nisso das internetes, locutor de telefonia com fios, Fernando Pessa dessa BBC que funciona vinte e oito hora por dia, sorvedoro de horas, engendradora de olheiras, mirradora de orelhas.

Roufenho, dizem-me também, fontes que não irei revelar, nem sob a mais tenaz tortura (só as cócegas da minha Orchidée me fazem confessar até o assassínio de Lincoln, sim, eu sou John Wilkes Booth). Rouco e de voz sumida ao fundo do túnel, anti-herói perdido no seu labirinto, sem Ariana nem fio dela, perdido de fio a pavio. Que de Roma e Pavia já se sabe, são como as obras de Olíssipo, hão-de terminar um dia.

Belas dicções há entre os seus confrades lá dos hebdomadários das internetes, dizem-me as mesmas fontes incógnitas que suspiram aqui ao lado. Ao lado delas e deles, meu amigo, parece um disco de vinil a tocar em rotação lenta.

Pauvre, pauvre J. ouço. Ora o meu amigo, que parece passar os dias enfronhado em tomos absurdos, e dedica as suas horas vagas a discutir os temas prementes da confecção de brigadeiros com as cozinheiras das casas de chá que frequenta, é o alvo dileto da compaixão desta que ilumina o meu ocaso com o fulgor resplandecente da sua juventude.

O que o meu estimado precisa, para além de uma vida, claro, é de uma boa dose de hidromel, para ver se aclara essa lassas e oxidadas cordas vocais. E depois do hidromel, os laureados faisões do nosso Reboredo, a ver se come algo que tenha marchado sobre a terra, em vez dessas raízes e sementes de que parece subsistir (isto quando não está a confabular com cozinheiras de casas de chá, não sei se já referi).

Está pois intimado a comparecer na casa d’Andrada amanhã, antes do anoitecer. Não se atarde, porque o Reboredo anda com saudade de o ouvir, não a falar, mas a cantar. Outras artes, outras vozes.

Deste que muito o estima e o considera e da suspiradora incógnita aqui ao lado,

J. E. de Andrada & Orchidée»