8.9.16

Carta acerca da ralação

Recebo, aqui no lugar de retiro, um envelope grande endereçado pela esferográfica veloz de Dona Ilda, com a escrita da mão férrea que governa as minudências terrenas da minha existência. Lá dentro, entre outras, uma carta escrita com a caligrafia inconfundível de J. Eustáquio de Andrada, desenhada pelo aparo de polição perfeita da S. T. Dupont Olympio. A tinta, desta vez, ostenta um belíssimo tom sépia: para o grande Andrada, setembro merece a estreia de uma cor outonal.

«Meu muito estimado amigo,

O doutor Samuel Johnson dizia que nenhum homem consegue saborear os frutos do outono enquanto deleita o seu olfacto com as flores da primavera. Ora o meu amigo sabe que eu sou pessoa para almejar sol na eira e chuva no nabal, que é como quem diz, os frutos do outono e as flores da primavera. Acontece, meu prezado, que as flores da primavera aqui ao meu lado, lacrimejam de ralação, por ausência de notícias de pauvre, pauvre J. Já de tudo foi aventado por aqui: que se alistou na legião estrangeira, que embarcou num novíssimo Titanic ou, o pior de tudo, que se perdeu a atravessar a rua e não conseguiu encontrar o caminho para casa (será decerto o primeiro a concordar que, dessa cabeça, tudo é de esperar). Já o deram como estropiado, finado, até raptado. Homem, por quem é: dê notícias! O cheiro das lágrimas aqui da flor da primavera já se tornou irrespirável. Eu, neste meu outono frutuoso, quero é descanso e não ralações por interposta flor primaveril. Bem sei que deve estar oculto numa esplanada onde sirvam sumo de alfafa decantado em casca de coco, e com um abundante suprimento de rama de nabo ou lá essas invenções de que se alimenta. Imagino que já tenha entabulado amizade para sempre com todos os profissionais de hotelaria e turismo da zona, que saiba tudo sobre as respetivas ascendências e descendências, que seja especialista encartado nos males de coração dos ditos, quiçá confidente, psicólogo, pároco, confessor. Tudo isso consigo ver. Só não vejo é motivo para que eu tenha que passar os dias a ouvir lamentos de pauvre, pauvre, J. como se o meu estimado estivesse já a jogar ao dados com Dante, sem o estar. Ainda se estivesse… Está, portanto, intimado a dar sinal de vida, sem delonga. Depois, pode voltar a reconfortar a alma com sumos de alfafa, todos os que quiser e suportar!

Deste que muito o preza,

J. E. de Andrada»