23.12.16

Recebo uma carta com a caligrafia cuidada de J. Eustáquio da Andrada

Chegou-me, pela mão própria de Reboredo, e que mãos tem Reboredo, ortopedista diplomado na escola de King Saul Boulevard, uma missiva escrita com a caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado de Literatura Portuguesa, atualmente dourando os seus anos no amplexo solar da dulcíssima Ochidée.

Meu muito prezado amigo,

Contam-me fontes geralmente fiáveis que foi avistado a sair olheirento de um desses locais atafulhados de tomos bafientos onde normalmente gasta os seus dias em inconsequente indolência, apenas quebrada por charlas ocasionais com gerentes de serviço, eufemismo moderno para o que dantes, em tempos mais rijos, se chamava empregadas de balcão. Imagino que disserte com elas sobre Wittgenstein, Benjamin ou Bloch, pensadores que, afirmam as mesmas fontes que aqui ao lado soluçam: «Pauvre, pauvre J.» agora lhe preenchem os dias e as noites. Por mais anos que viva, e espero que sejam muitos, não perceberei a sua vida, nem a lástima que inspira a esta doce e pura orquídea, que por si verte tão copiosas e estridentes lágrimas.

Não creio que existam razões para lamentar o homem que se enfronha em livros cheios de traças de sol a lua, com eventuais paragens numa estufa de ervas (É só o que come, não é? Isso das urtigas, não pica o palato? Mera curiosidade…) e em esplanadas com cafés de duvidosas qualidades térmicas. Bom, adiante: instado por esta alma generosíssima («Pauvre, pauvre, J.») que se aflige por o meu caríssimo amigo em vez de uma boa posta de bacalhau dos mares do norte se preparar decerto para fazer um festim natalício com uma folha de alface e um ramalhete de rúcula (e sentir-se-á cheio que nem um abade, acredito) venho endereçar-lhe um convite para que compareça por cá na noite do dia vinte e quatro. Se conseguir descolar a testa dos cartapácios, até pode vir mais cedo, à hora a que começa a fazer frio nas esplanadas. Suponho.

O diligente Reboredo, que lhe entregou esta em mãos próprias, já delineou o festim. Sim, haverá alface e ele pessoalmente encarregou-se de comprar umas bagas Goji e duzentas e cinquenta gramas de sementes de chia. Não morrerá de inanição. Caso decida abrir uma exceção nesse caminho para o ascetismo nepalês ou tibetano, ou lá o que é, haverá também comida de gente humana, aquelas coisas que se comem nesta época e que têm, oh horror! capacidade de não só matar a fome, como de deixar um homem plenamente satisfeito. «Canja, sopa de ervas, arroz de marisco, bacalhau de cebolada, pescada frita, frango com ervilhas, salsichas com couve, chispe, mãozinhas de carneiro, vitela estufada, vitela assada, lombo de porco, cabeça de vitela com feijão, pato com azeitonas, orelheira, rim, carne para bifes, tudo pronto, preços sãos, vinho do lavrador, a rica amêndoa torrada!», diria o nosso Eça. Nem tanto, mas lá perto.

Estou aqui a ser acusado de crueldade psicológica extrema para com o meu amigo, por alguém ao lado, que vai lendo o que eu escrevo, e carpindo-o, com o belamente esculpido queixo espetado no meu ombro. Lavro o meu voto de protesto à palavra «extrema»! E já agora, antes de me despedir, deixe os meus votos de boas festas às suas leitoras e aos seus leitores (você terá leitores, homem, naquele hebdomadário que publica nas internetes; não apenas leitoras).

Não se esqueça, nem se atrase. Aqui ao lado, de cada vez que demora um minuto a mais do previsto, pensam de imediato que foi deportado, ou, com sorte, raptado sem pedido de resgate. E então, são umas lamentações que deixariam Jeremias acabrunhado, digo-lhe eu.

Aceite um abraço deste que muito o estima e considera,
J. Eustáquio de Andrada