22.1.17

As melhores alturas para pecar e para escrever sobre pecados

O post mais visto neste blog nas últimas semanas é o que tem no título e no tema a referência a um pecado. É um post de janeiro e é evidente que nesta altura a gula é um pecado que se mede em quilos, aumento do índice de massa corporal e polegadas de adiposidades várias. Ainda tem a premência da presença. Faz-se notar.

Mas terão os pecados maior importância sazonal? A preguiça é pecado em agosto? A luxúria em meados de fevereiro? A ira em dia em que a equipa perde? A soberba quando se recebe o diploma? A avareza em abril? Imagina-se o pecador contrito a explicar ao juíz do tribunal celeste, meretíssimo, fui unha-de-fome, mas sabe, foi só naquilo de declaração ao fisco. O juíz do tribunal celeste consultará a tabela de circunstâncias atenuantes, meu filho, pecaste em abril e nesse mês aplica-se desconto a esse pecado. Na folha de deve e haver é creditada então na conta do pecador a percentagem a haver. Sobra margem para outros pecados extemporâneos.

E que deve fazer um escriba que pretenda abordar o tema do pecado, quem sabe se no meio de todo um ror de elocubrações em torno da moral e dos bons costumes? Atenhamo-nos ainda como exemplo à gula. Falar do pecado uniformemente ao longo do ano e falar de empanturranços de bolo rei em dezembro e de barrigadas de folar quando calhar a páscoa e de lambuzamentos de gelado de chocolate branco em julho de modo a levar o leitor a arrepender-se no ato de cometimento embora correndo o risco de pregar no deserto à uma da tarde? Ou antes pelo contrário falar apenas à posteriori de dedo em riste em demanda da redenção do leitor em fase já de irreversibilidade do remorso? Ser condescendente ou antes acusador? 

Veja-se o caso de quem alinhava estas palavras. Talvez lá no livro do deve e do haver a gula por um café bem tirado em qualquer mês seja pecado sem atenuante. Nesse caso estou condenado à partida e não será por isso que deixo de mover parte das linhas que por aqui espalho a cafeína e deixo de narrar até à saciedade as circunstâncias em que me vou afundando em tal vício. 

Está decidido. Escreverei ao longo do ano, pese a sazonalidade que não é destino menos ainda grilheta. Restar-me-á pedir clemência ao juíz do tribunal celeste, arranjar um álibi convincente ou esperar que ele compreenda as debilidades dos fracos de vontade. Talvez exista mesmo uma bem-aventurança que proclame que a estes fracos pertence um bocadinho que seja do reino dos céus. Àqueles a quem apetece abusar de gelados em fevereiro e ser preguiçosos em outubro? Ora se houver, o pecado mais imperdoável não será mesmo não pecar?