4.1.17

Faróis de nevoeiro

Tu olhas o nevoeiro e decides que não podes esperar até à hora de chegar ao café para veres o caminho com limpidez. Antecipas-te, tomas um atalho, colocas a cápsula preta na máquina, enquanto pensas em sacrilégio (sacrilégio!) e te perguntas porque é que assim não mexes o café com a colher nem o deixas arrefecer. Lembras-te das laranjas que sabem a explosões de luz quando as apanhas da laranjeira ainda a chorar lágrimas de seiva. Fazes a analogia com o café acabado de sangrar da máquina. Afluem-te, nem sabes de onde, ideias para escrever sobre os Romanov, lembras-te do quarto de Catarina, a Grande e dos émulos de Pedro, que por lá pululam, dois metros, pelo menos, por isso era Grande, por isso são grandes. Lembras-te das belas princesas nos quadros do Hermitage. Fazes contas ao tempo. Neva no Neva, mas voltavas lá agora, para as rever. Não te enganes: é mesmo para te imolares pelo frio. Voltas a olhar o nevoeiro depois do café, está igual. O café não o afastou, mas soprou algum do que tinha entrado subrepticiamente para dentro de ti. Arranjas uma frincha para te alumiar as sombras. Revês mentalmente a absurda lista de horas do teu porvir. Essa parte o café cumpriu: os faróis emprestados iluminam-te o dia todo. Inspiras, expiras: sentes a respiração fluir como te ensinaram há muitos anos. Convences-te que consegues assim que, conjuntamente com o ar, entre mais luz. Luz misturada no ar. É uma teoria louca, mas loucura por loucura, aceitas tudo o que ajude apartar o nevoeiro que não para de se expandir para ti.