18.1.17

Metal fundido

Há muito que não recordava o cadinho de metal fundido borbulhando denso por cima da fornalha. Revejo o homem de face rubra debruçado sobre a superfície argêntea e o sufoco feito de espanto que senti na primeira vez que entrei na sombra iluminada pelo fogo domesticado. Revejo-o enquanto rodeio a chávena de café com as minhas mãos e deixo ficar até depois de sentir a dentada do calor na ponta dos dedos. Os dentes da porcelana alvos como os de um cão. Mas não é de dentadas brancas que preciso. Preciso das dentadas negras do cadinho incandescente e da fusão do corpo com o metal numa hibridez de centauro. Carne e prata. Era lá que as minhas mãos deveriam permanecer até atingirem o ponto de dissolução. Na fornalha. A fornalha é a esperança de eternidade do fogo.