9.1.17

Regresso a Ítaca

Sentado na esplanada após semanas de ausência, por trás de mim ouço a voz de Dona Aureliana, que entretanto se tornou vice-presidente do lugar, como a leitora recordará. Discute a gestão do café ao telefone com Dona Patroa, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Eu, que já enchi o depósito de cafés por hoje, deixo-me ficar refrescando o palato com um chocolate frio [para, modéstia à parte, o contabilista que toma conta dos meus pecados ter algo que escrevinhar na coluna da gula]. Protegido por casaco e sobretudo, sinto-me confortavelmente anestesiado aqui ao ar livre. Não bate o sol, é bem verdade, mas a brisa é cálida [fazia falta aqui um eufemismo, daí o cálida]. Não há uma grande obra literária sem um regresso a casa, desde que Ulisses voltou a Ítaca. Se um dia criar um café [creio ser a minha verdadeira vocação, quando me deixar destas minudências que me preenchem as horas] hei-de chamar-lhe Ítaca. E se Dona Aureliana ainda não se tiver estabelecido por conta própria, contrato-a para vice-presidente. Os meus dias, ah, esses passá-los-ei em Ítaca, na minha esplanada a enviar missivas inconsequentes como esta à leitora.