19.1.17

Tempo de prateleira

Ao entrar na livraria vejo os livros do galardoado em primeiro plano, mesmo aqueles que nenhum leitor alguma vez comprará a não ser uma minoria especializada e se comprarem não lerão ou se iniciarem a leitura por certo esta ficará a meio. Pergunto sem esperança de resposta se extinta a última chispa do prémio restará algo daqueles tomos sóbrios e científicos e ponderados nas estantes. A literatura tem um tempo de vida de prateleira, dizendo de outra forma o seu padrão de conservação assemelha-se mais ao de um figo do que o de uma garrafa de aguardente de figo. Pergunto também sem aguardar resposta se os livros de Herberto ainda se vendem e melhor se são lidos depois de se ter temporariamente tornado um fenómeno especulativo. Herberto passou de ouro a loja de ouro, diria acerca desses anos antes da morte. Anos depois de morto, morreu. Não apenas os livros mas os escritores têm também tempo de prateleira. As garrafas de líquidos etílicos ainda ganham depósito por dentro. Os livros e os escritores que passaram o tempo de prateleira vão simplesmente para dentro do depósito. O precipício da prateleira é um patíbulo.