3.1.17

Tocar violino com a mão trocada

Sabia, obviamente, que era o Concerto Brandeburguês, Número 2. Afinal, tenho várias versões, compradas em romarias obsessivas aos templos onde, dantes, a música era servida em discos prateados. Mas não sabia quem interpretava. Valeram-me dois santos: São Semáforo e São Shazam. Claro que podia ter esperado pelo desvendar no final, mas ambos os Santos estavam ali à mão, prestimosos. A versão era a minha favorita, a de Reinhard Goebel (chamá-la favorita e não a reconhecer deveria encher-me de vergonha, mas vou protelá-la, a esta, para ocasião mais meritória). Goebel, que tocava violino com a mão esquerda, em mil novecentos e noventa, por traumatismo, teve que abandonar por uns tempos a sua arte. Não se rendeu: reaprendeu a tocar com a direita. Não há memória de que alguém tenha feito tal, alguma vez. Mais tarde, recuperado, voltou a tocar com a esquerda. Não sei se a versão que tenho é com a esquerda ou a direita. Não creio que fosse capaz de as distinguir — afinal, deveria ter sido capaz de reconhecer que era o virtuosismo dele e até nisso falhei. Falhei, sorrindo. Foi a música perfeita, quando dela precisava. Devido a ela, peguei no meu violino e troquei de mão. Desafinei nas primeiras notas, pois claro. Reinhard Goebel não sou, e posso sofrer de excesso de indulgência, mas toquei melhor hoje com a direita do que ontem com a esquerda.