24.1.17

Tomar medidas exatas

Estou sentado na esplanada a tomar o café da tarde, o segundo do dia porque as regras são para cumprir: um de manhã, um de tarde e fica a conta certa [exceções admissíveis apenas em dias excecionais, que são menos do que aqueles em que se admitem redundâncias escandalosas]. Dona Aureliana, com uma manga curta que contrasta com o meu cachecol por cima de casaco e debaixo de sobretudo, entregou-me há pouco a chávena a fumegar, dizendo com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Já viu que dia lindo, doutor? Não vi eu outra coisa, Dona Aureliana, um céu tão azul que parece que estamos no verão de outro hemisfério e não no inverno deste. E ela: É o céu da terra lá minha. E a voz dança, com o ritmo da terra lá dela. E eu aqui sentado preparo-me para escrever à leitora uma missiva dando conta das novas inconsequentes deste espaço.

Ali ao lado, Dona Patroa, trajada como se fosse véspera de passagem de ano e a rolha da garrafa de champanhe estivesse em ânsias para saltar, distribui trabalhos pelos fornecedores por via do seu telefone sem fios que ocultaria um guardanapo para este nunca mais ser visto, tal é a superfície útil do ecrã de fio a pavio. Tanto despacho só pode ser dado por intermédio de um ecrã com muitas polegadas: imagino os almocreves do outro lado ao receberem os telefonemas de Dona Patroa, a correrem a esconder-se debaixo das mesas, como se ouvissem notícias de um tornado eminente, tal é o vigor com que Dona Patroa negoceia, pressiona, ordena. Até parece um estereótipo, Dona Patroa [Dona Aureliana, vice-presidente do café, discordaria vivamente desta minha congeminação e ela é que conta nestas contas estereotipadas.]

Ao meu lado passa agora, com aspeto marcial, um senhor com ar de Mestre de Obras, a medir a esplanada a passos largos, linha reta para a frente, prova dos nove para trás. Terá uns trinta passos bem medidos, de Mestre de Obras, a esplanada, digo eu assim a olho agasalhado. Quando se mede uma esplanada tão pródiga em eventos, praticamente o centro de um mundo, tal como quando se dá notícia do que por aqui se passa, temos que ser exatos acima de tudo nos passos, pois não é, leitora estimada?