5.1.17

Um melómano cheio de idiossincrasias

Liguei o carro, e a música espalhou-se de imediato como um perfume, uma Chaconne de Lully, mas tocada em teorba. Uma exclamação interior, que omito aqui (consumi um ponto de exclamação há menos de vinte e quatro horas, a dieta impossibilita que use hoje um, de novo), nunca tal tinha ouvido, e isso foi ontem, porque hoje, ao ligar de novo, à mesma hora, foram as Walquirias de Wagner, mas vertidas para piano. Já ouvi peças de Bach feitas para violino e transcritas para piano, alaúde ou guitarra. Já ouvi quartetos de Beethoven transcritos para orquestra. Já ouvi, valha-me o sagrado, o Canone e Giga de Pachelbel transcrito para ritmos urbanos. Mas aquela Chaconne, foi inesperada. São Shazam não a conhecia, pelo que terei que procurar o intérprete e a versão, tenho que a ouvir de novo para aferir. Não é em vão que já escutei de forma obsessiva a interpretação de Savall, até quase saber de cor quando acontecem os suspiros dos intérpretes nalgumas passagens. Há uma Partita de Bach que me é insuportável escutar, tal é a presença física do violinista (estimado Jaap Schröder, porque é que tem que respirar?). Sou um ouvinte cheio de idiossincrasias: prefiro algumas transcrições às versões originais, virando ao contrário a vontade do autor, prefiro algumas interpretações a outras (com veemência especial nas obras de violino) mesmo que sejam quase indistinguíveis, não quero ouvir sinal de vida do intérprete, mas entro em transe musical ao escutar Delta Crossroads, gravado por Robert Lockwood, Jr. aos oitenta e quatro anos. Ainda hoje, Lockwood vive de corpo inteiro naquela gravação, também pela magia de escultura sonora de Michael Bishop, responsável pela engenharia de som. Está nevoeiro lá fora, e eu até me esqueci dele enquanto vasculho estas memórias musicais. Mas é um nevoeiro persistente, sólido, de boa qualidade. Também o aprecio, afinal. Dona Arminda, ao dar-me os bons dias hoje, tinha as unhas pintadas de verde, no tom exato das cornucópias do vestido. Apreciei mas não lhe disse, por pudor. Indiosincrático, mas púdico, portanto. Notar é ler para a partitura original, dizer é transcrevê-la. Se algo aprendi ao escrever este texto foi que não transcrevo, quanto podia, as partituras originais. Finalmente, tenho uma resolução de novo ano, mesmo que janeiro já vá avançado: transcrever mais partituras. É a minha partitura prioritária.

[Adenda ao início da noite: numa entrevista passada há pouco, o maestro Martim Sousa Tavares, que dirige sem olhar para a partitura, disse algo extraordinário: «Um maestro tem que conhecer a partitura como se a tivesse escrito». Adoto como segunda resolução de ano novo. Começam a acumular-se.]