30.1.17

Um plano de sobrevivência (ou: da vida dos pirilampos)

Mais do que nunca, leitora, precisamos de beleza. Não que nos falte, não é isso, ou não é apenas isso: ela existe onde os nossos olhos se fixem, está lá à espera de ser descoberta, ou revelada, como as fotos na câmara escura. Precisamos é de a trazer para o ar livre, de falar dela, de a saborear como a um dióspiro, deixar que nos alague a boca e talvez os olhos, porque não? Vejo a leitora a duvidar, a pensar que este é fraco plano, que mistura necessidade com solução, que não apresenta relações de causa e efeito credíveis, que parece simplista, infantil até. Podia contrapor, elencar argumentos, citar filósofos, ilustrar com um quadro de um pintor japonês, mas não o vou fazer. Vou antes levar a cabo uma experiência: mudar, enquanto puder, a linha editorial deste blog (se é que teve alguma vez alguma), para a procura e a partilha dessa beleza. Talvez seja mais justo dizer, ajustar a linha editorial deste blog.

Não há grande coisa que se possa fazer num blog em tempos de escuridão, diz a leitora, que eu bem a ouço daqui? Claro que há: espalhar telescópios que aproximem as estrelas, semear flores que reflitam a lua, colocar espelhos junto dos faróis para desaustinar os fotões. Arregimentar poetas, daqueles com palavras iluminadas, pintores que tenha usado os pigmentos mais frescos e compositores que tenham criado melodias com o aroma da água fresca.

E isso é lá linha editorial que se apresente, indaga a leitora, arqueando ligeiramente a sobrancelha, perante tal vacuidade de ambições, pejadas de vontades etéreas. Pois por algum lado terei que começar, estimada e atenta leitora. Se o barco correr o risco de se perder na imensidão da busca da beleza, haverá sempre um astrolábio e um leme e uma carta e uma estrela. Titubeando ou não, se encontrarão caminhos. É possível voar à volta da Terra e estar sempre banhados de luz enquanto dura o vôo. Não significa ignorar que as trevas existem, apenas não esquecer que as trevas só sobrevivem enquanto a luz estiver obscurecida. Do que deste escriba depender, aqui não se falará de trevas. Mesmo que seja da vida dos pirilampos, lá está, falar-se-á é de luz.