18.1.17

Um sol frio a vinte e dois graus

De todos os sóis existentes no universo havia de lhe calhar um sol frio. Incompetente para aquecer o coração do homem que percorre as avenidas da cidade num casulo aquecido a uma temperatura constante de vinte e dois graus. Do homem que se dobra sobre a mesa grande do gabinete enrolado numa manta de ar anestesiado. Do homem que vê para lá da janela as cortinas exteriores de um azul de aço temperado em liga de orvalho. Mas o sol frio não encontra o caminho nos túneis finos que ligam a pele ao coração. Perdem-se os raios nos escuros becos do labirinto torácico. De nada servem os vinte e dois graus constantes com que o homem veste o corpo ambulante. A temperatura do sol é subzero. O coração desensolado enrola-se fetalmente sobre si. Fatalmente desconsolado.