6.1.17

Uma história de amor por contar

Não sei se será sentimento correspondido, mas amo os semáforos. É nos semáforos que oro a São Shazam, é nos semáforos que anoto as epifanias que me esbarram no cérebro durante as travagens suaves, precisas, é nos semáforos que me sacio por um cucharro do poço de informação do telefone sem fios, perorante, expectante. Hoje amei mais ainda, por causa de Egmont. Foi num semáforo que começou a acelerar e era mesmo o que eu queria ouvir naquela altura, ali estacado. Como se Santa Antena Dois adivinhasse as minhas congeminações, mais parecidas com orações, lá está. A leitora imagina-me a bater o pé no semáforo ao som de Beethoven? É bom que nem imagine: a desinfeliz e oscilante viatura odeia tanto Beethoven quanto eu amo os semáforos, não sei se já disse. Confessado em público, não há retração possível. Ah, se amanhã tocassem a Sétima enquanto estou no meu semáforo de sonho, isso é que ia ser uma dança de pé batido, um fandango pneumático, um desastre para os calços do travão. Mas, ah, o amor, quem é que o pode travar?