14.1.17

weblog [da gula]

ele confessa-me que precisa de perder peso. olho-o, estamos ao balcão do café, ele domina a gula, uma vontade de ferro, uma disciplina temperada a diamante. estimo a altura e o peso: deverá andar pelos sessenta quilos, se tanto. e tem que perder peso. [ative-me só ao café, desviando o olhar do que mais havia no balcão do café: que direi eu então?]

ao entrar num elevador, ouço a queixa sonora deste por excesso de carga. disse às presentes desconhecidas uma versão diferente da dele, mas com o mesmo significado: tenho que perder peso. uma delas, generosa: mais? olhe que desaparece. não sei quem ela viu, mas não fui eu, decerto. [as notícias do meu desaparecimento são grandemente exageradas]. ainda assim, aproveitei, por umas horas: baixei a guarda, venham de lá essas calorias, que o tempo está de feição.

o papa Gregório I, que elencou os pecados mortais, definia assim o guloso:
às vezes, antecipa a hora de comer; às vezes, procura carnes dispendiosas; às vezes, exige que os alimentos sejam cozinhados delicadamente; às vezes ultrapassa o objetivo de saciar a fome, por excesso; às vezes, peca na intensidade do apetite.
confesso que me revejo na definição [exceto no que toca ao departamente das carnes]. sou portanto guloso com selo papal. se voltar a entrar naquele elevador e ele se queixar, referirei esta confirmação, vinda do próprio Vaticano.

a gula oficializada tem outro peso, literalmente.