9.1.17

weblog [o livro de RAP, com adenda]

quebrei a minha primeira resolução de ano novo [não comprar livros em papel em janeiro] logo na primeira semana. lá se vai qualquer esperança de ter uma coluna vertebral no que a resoluções concerne. o livro foi o de Ricardo Araújo Pereira, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar. RAP é alegadamente o melhor humorista que temos no ativo [Herman nos seus tempos áureos foi superior] mas é um esforçado teórico do humor: o livro lê-se como uma parte de uma tese de mestrado, uma revisão de literatura, digamos, em que o autor não teve tempo nem disposição para escrever as conclusões. como o estudante que tem que entregar o trabalho com a guilhotina do prazo à vista: parece que o livro teve que ser editado em dezembro a tempo de caber numa meia pendurada numa chaminé. vinte mil exemplares vendidos, proclama a capa: são muitas meias recheadas, digo eu. o problema de RAP é tentar explicar o humor e acabar mesmo por explicá-lo: o efeito é anticlimático como quando se disseca uma anedota. não é uma teoria do humor: é uma lista incompleta de técnicas baseadas maioritariamente em exemplos televisivos [verdade seja dita: não exclusivamente, há também Joyce, Shakespeare e Lodge, entre outros] a que RAP faz a autópsia. devorei numa penada, é certo, mas não me ri uma vez que fosse. posso não rir a ler a escrita de Bergson sobre humor, mas de RAP espero mais. como humorista, RAP sabe que as piadas não carecem de explicação. se carecerem, é de piada que carecem.

 [sobre o acima dito escreve o ouriquense:
Discordo do essencial da crítica: um livro sobre técnica de escrita humorística não tem a obrigação de ser divertido. 
não creio que exista uma discordância de fundo sobre este ponto: não tem essa obrigação, de facto. mas quando os exemplos que RAP escolhe, como os televisivos das séries de Seinfeld, Larry David ou Rick Gervais têm que ser explicados em contexto, porque este está inteiramente ausente, o leitor pergunta-se legitimamente mas onde está o humor aqui? RAP tem que explicar de onde advém a piada e não só porque resulta. o oposto do humor, portanto. o livro fica-se no todo por aquele limbo penoso: se não fosse de RAP, seria ignorado; sendo de RAP, parece o trabalho de um aluno de vinte que estudou para dez e passou. bom para ele.]