13.2.17

A mão de Deus

Só consegui ler quando me aproximei. Tatuada a cursivo na mão direita, por cima do quinto osso do metacarpo, tinha a palavra 'Deus'. Evidentemente que sendo o corpo todo a tela para quem se tatua, não só é o que é tatuado como onde o é que merece descodificação. A palavra poderia estar tatuada no braço, e nesse caso não a teria visto. Mas na mão, naquela posição, é visível para todos, menos para o portador, ou pelo menos não o é sem que tenha que rodar o pulso. Ver Deus no próprio corpo passa a ser um ato deliberado, quando para os outros, o é involuntário. Já o terço, gravado no pulso esquerdo, não escapa a qualquer olhar ou colocação, mas naquela posição fez-me lembrar mais os «mala» da tradição budista, do que rosários cristãos. Tal consideração não esteve na mente nem do tatuador nem do tatuado, quero crer. Fossem a considerar todas as possíveis associações de tal simbologia, e ainda hoje a tinta daquela tatuagem não teria saído da agulha. Mas num acesso de pessimismo, rejeito a aceção piedosa da decoração e ocorrem-me analogias terríveis para esta mão de Deus. Uma mão que pertence a Deus não tem que prestar contas do que faz: a Deus pertence a derradeira impunidade. Aquela mão fará um dia, se não o faz já, parte dos pesadelos de alguém.