1.2.17

Gosto do som de destrocar ao amanhecer

Venho apenas aqui num instantinho dizer à leitora que acabei de destrocar. Perante o olhar perplexo que aí adivinho, eu explico. Cheguei pela manhã fresca e azul ao café do Senhor Variações. É um café cheio, se faz favor, peço eu a Dona Ingride que tem aquele cabelo dourado lá dela, de quem veio das terras frias dos nortes. Entretanto, entrego uma nota grande e um pedido de desculpas ao Senhor Variações: Só tenho assim, não tenho trocado, peço muita desculpa. Impassível, o Senhor Variações enche-me as mãos de moedas: Doutor, se por acaso passar aqui daqui a bocado, venha cá destrocar que estas me fazem muita falta. Ora essa, pode estar descansado que destroco. E assim, agora que as voltas se proporcionaram, já tenho a carteira mais leve: destroquei. Ah, já me esquecia de dizer que Dona Ingride, prestável mas desconhecedora das peculiaridades deste freguês, tinha colocado o pacote de açúcar no pires. O Senhor Variações, antes de me entregar o café [sim, ele fez questão] de um golpe retirou o pacote de açúcar, mas deixou ficar a colher. Também ele destrocou a encomenda, repondo a normalidade invisível. Posta a situação nestes termos, não viria também a leitora destrocar as chapas sonantes de vil metal?