21.2.17

Livro de voo

Em viagens longas prefiro um livro daqueles a que se viram as páginas com afinco e ritmo. Depois de várias tentativas de ler em aviões os meus autores eivados de frases complexas e musicais e intuições profundas sobre a natureza humana, desisti. Numa viagem o livro deve ser um vórtice de horas. O livro de voo comprimirá o tempo como a mão que aperta a esponja. O escritor é um prestidigitador do tempo. Descobri que há escritores, e livros, que me dão mais minutos às horas, outros que os retiram. Tenho passado a vida a pensar que o génio reside exclusivamente nos primeiros. É constatação recente, de poucos dias, que comprimir o tempo não é rasgo menor do que expandi-lo. Talvez esteja, arrisco a dizer estejamos, a avaliar a novela pelo padrão errado. O que chamaríamos a quem é capaz de encurtar uma viagem de oito horas a duas, ou mesmo uma? Génio? Creio que é perfeitamente adequado.