11.2.17

Na corte do Preste João

‘E deveis saber que na corte do Preste João comem todos os dias mais de trinta mil pessoas, sem contar com os que vão e vêm,’ afirmou John Mandeville, Sir, no relato das suas magníficas viagens ao mundo conhecido em meados do século catorze, antes dos portugueses demandarem as terras do imperador cristão do oriente por via marítima. Sete reis serviam João, e partindo estes outros vinham, porque cada uma das setenta e duas províncias tributárias do imperador, tinha o seu rei, e cada rei tinha como tributários outros reis. De onde vinham reis, viriam sempre mais reis. Há lá maior mostra de grandeza do que ter reis como serviçais? E as gentes do século catorze espantaram-se e fizeram-se ao ríspido e longuíssimo mar ou enfrentaram o inclemente deserto em busca da terra onde até os pratos eram lapidados a partir de gigantescas pedras preciosas. ‘M’espanto às vezes, outras m'avergonho,’ disse Sá de Miranda, que viveu no século seguinte ao de Mandeville. Seis séculos depois, já não buscamos as terras do imperador. Nada nos espanta, pouco nos envergonha. É esse resto ténue de vergonha que mantém o fio da nossa civilização. Perdidas as ilusões, perdida a vergonha, restar-nos-á menos do que as ruínas da formidável corte do Preste João.