8.2.17

Não sei dizer que não [a boníssima comida]

Ele vem com o sorriso rasgado e aquele inglês lá dele que atravessou desertos e estepes e estende-me o que traz na caixa dizendo [eu traduzo para a leitora], Doutor, quer provar? é muito boa. Eu faço o meu melhor sorriso de escusa, Acabei de almoçar, muito obrigado, mas ele insiste, É piza de peixe, doutor, é muito boa. Falta-me a coragem para recusar mais, não sei dizer não a uma oferta tão plena de simpatia, aceito. É boa, na realidade. Ele atravessou meia cidade, e a piza ainda está quente, não sei como. Degustada, vou ter com ele e confirmo, Boníssima a piza, na verdade [dito em inglês, pois claro]. Passam segundos e ele vem ter comigo de novo, falando em voz tão baixa que mal ouço, revelando-me o segredo da piza, o restaurante onde se chega atravessando meia cidade, e que tem maravilhosa comida portuguesa como aquela piza e quantas mais e lasanhas e pastas, E tantas outras comidas boas, doutor, portuguesas, o meu português é escasso, não sei dizer os nomes, mas as comidas são todas boníssimas. Repete o nome do restaurante e do dono com o verdadeiro entusiasmo de adepto, já é da casa. Agradeço vivamente a revelação. Quando quiser comer autêntica comida portuguesa, como aquela boníssima piza de peixe, já não terei que andar à toa pela cidade.