5.2.17

O domingo a acontecer

Há pouco vi o domingo acontecer mesmo à minha frente, ia eu nos meus passos a roubar sol, vindo de uma esplanada preguiçosa. Numa cadeira solitária de uma outra esplanada despenteada pela aragem fresca do final da manhã, um homem com a cara agasalhada por umas barbas ainda castanhas, debruçava-se com as costas em ângulo reto sobre um livro espesso e sublinhado a verde líquido. O homem revia as páginas marcadas, e anotava-as com gestos meticulosos. Uma manta sobre os joelhos isolava-lhe as pernas do vento enquanto ele se fechava nas páginas do livro. Podia tê-lo avistado em qualquer outro dia, é certo, porque aquele livro andava há muito a ser lido, não tive dúvidas. Mas noutros dias, àquela hora, a esplanada estaria cheia de gente de traje de negócios a chegar para o almoço, o homem já não teria o silêncio para orar assim naquelas páginas, sim porque parecia quase uma devoção. Uma manta por cima dos joelhos numa esplanada combina é com o domingo, temperando uma leitura transformada em veneração. Eu ainda não me converti, é certo, mas fiquei com ideias.