10.2.17

O granizo e a idade

Depois de apanhar chuva e granizo é mesmo numa esplanada que me apetece almoçar. Dona Aureliana recebe-me com aquela manga curta dela, a mesma que usa dos picos do verão até às catacumbas do inverno. Quem está sempre com calor é aqui a Dona Aureliana, digo eu, ainda a sacudir as pedras de gelo da gabardina. Ela abre o sorriso e com aquela fala lá dela que atravessou o equador, explica, É da menopausa, doutor. A minha estrondosa gargalhada deve ter-se ouvido num molho de vários quarteirões em redor. Dona Aureliana faz beicinho, Pois, ninguém acredita quando eu digo isto. Oh, o lamento. Eu confesso já aqui à leitora a minha incapacidade para avaliar idades do eterno feminino. Mais arte do que ciência, mais perigos do que recompensas. Abstenho-me. Assim, quando atribuo à Dona uma existência, vá lá, de trinta e cinco anos, estarei decerto a falhar por um par de anos, por defeito ou excesso. Pode ter trinta e três, pode ter trinta e sete. Mal iria no entanto se tanto falhasse na minha avaliação, ou se a biologia fosse tão inexata ciência. Abrigado da chuva copiosa, e enquanto tomo o segundo café do dia, escrevo estas minudências inconsequentes. Numa pausa, também. De vez em quando lembro-me e dou uma gargalhada, mas desta vez em surdina. Tenho uma reputação de sólida sobriedade a manter, pois não é?